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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

... DOS MOMENTOS

Foto de Giancarlo M. de Moraes
Uma garoa guasqueada
me chamuscava a garupa
e o vento dando rajadas
mandava o chapéu pra nuca

Antes que a noite chegasse
tinha que bandear o rio
e se acaso não bandeasse
talvez morresse de frio

Convidei meu pingo baio
que num “truvisco” de raio
mostrou raça ali na hora

Tudo na vida se ajeita
é só seguir a receita
num cutucão de esporas


terça-feira, 20 de junho de 2017

ATÉ AMANHÃ!

Foto de Janaína Real de Moraes
Solto a zaina no pasto
findando mais uma jornada
e minhas mãos calejadas
do trabalho e da rotina
que é parte do meu “combate”
se enconcharão para um mate
e acarinhar minha china

No último degrau da escada
o sol desce com sua luz
faço o Sinal da Cruz
na hora da Ave Maria
agradecendo a saúde
pedindo a Deus que me ajude
e me despeço do dia

sábado, 17 de junho de 2017

POR QUE EU?

Foto de Giancarlo M. de Moraes
Quando cheguei no bolicho
tava começando a riosca
a canha fazia “cósca”
instigando um índio maula
outro que não era flor de cheiro
contido pelo bolicheiro
parecia um leão na jaula

Botei só um pé pra dentro
observando o alarido
atento e prevenido
dei um “buenas” sem resposta
quando um estouro de facão
deu início a confusão
do jeito que o diabo gosta

Liberei de pronto a porta
quadrando o corpo no “más”
dei um passito pra trás
deixei livre sem embargo
um rufo passou por mim
qual cachorro e graxaim
num já te pego já te largo

Tinia o ferro branco
com estouros e pontaços
gambetas de pernas e braços
num bailado de dar medo
dois viventes que enxergavam
e que por certo guardavam
algum golpe de segredo

Dito e feito sem demora
mudou a cor do combate
um filete escarlate
verteu de uma sobrancelha
e como um rude argumento
um contragolpe violento
decepou uma orelha

Duma sombra eu apreciava
aquele duelo de machos
suava até o barbicacho
me ressecava a goela
mas ali eu era estranho
não pertencia ao rebanho
e preferi ter cautela

Num impulso fui apartar
mas recuei por precaução
num entrevero de facão
sempre sobra algum talho
já  que ninguém se meteu
então pensei – porque eu
vou querer virar retalho?


sábado, 25 de março de 2017

PRENDA DE PRATA

Foto de Janaína Real de Moraes

Vieste pratear o meu rancho?
Benvinda prenda lua
te aprochega a casa é tua
va entrando a teu jeito
sei que não tens preconceito
nem escolhes quem visitas
e aí do alto ficas
guiando qualquer sujeito

Surgindo de trás do mato
ou no lombo da coxilha
o encanto desapresilha
e uma canção se entoa
na voz da noite que ecoa
da sombra dos aguapés
e te enxergas como és
no espelho da lagoa

Uma nuvem ciumenta
tenta esconder tua beleza
mas continuas acesa
e deixas ela de lado
incendeias o meu pago
de amor e poesia
num cenário de magia
por tua luz desenhado

Pelo romantismo da noite
és culpada prenda lua
pois nesta pampa xirua
o frenesi toma conta
o amor outro encontra
e muitas juras são feitas
tenho certeza que ajeitas
vendo tudo mas não contas

Tu és a primeira prenda
dessa querência infinita
deixando ela mais bonita
quando vens cheia e prateada
também és a namorada
de todo o peão andarilho
que na espora leva o brilho
da tua luz nas madrugadas

Amanhã sei que tu voltas
e o meu rancho te espera
o “boa noite em tapera”
por aqui nunca darás
a porta se abrirá
pra entrares prenda lua
já te disse a casa é tua
venha comigo morar

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

DAS CHUVAS II

Foto de JANAÍNA REAL DE MORAES
A tarde se enferruscou
e bufando pelas ventas,
despejou uma tormenta,
escurecendo mais cedo,
metendo um certo medo,
co’as nuvens num reboleio,
causando um dano feio,
nos galpões e no arvoredo.

A palma benta queimando,
uma cruz de sal na mesa,
um terço e uma vela acesa,
em frente à Santa Bárbara.
Enquanto o vento faz carga
e tudo lá fora entorta,
cá dentro uma oração conforta,
o rancho em horas amargas.

Merma o vento e com a chuva,
a tarde fica mais clara,
o sol depois mostra a cara
e a tormenta vai embora,
fica a marca da melhora,
qual uma borda de pires,
nas cores vivas de um arco-íris,
neste céu aqui de fora.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

...DO NATAL

Lá de fora o Papai Noel se esquecia
e não ficávamos descontentes,
com um caco ou outro a gente fazia,
nossos brinquedos, nossos presentes.

Uma latinha, uma tábua um carretel,
em potentes carros se transformavam,
enquanto nós os “Papai Noel”,
a nós mesmos nos presenteávamos.

Vida simples de uma pura infância,
sem preconceito, mágoas ou ganância,
passou deixando apenas a saudade.

Embora o Papai Noel lá não fosse,
mesmo uma casca de ovo cheia de doce,
fazia nossa felicidade!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O JEITO É ESTAR PREPARADO

Chegou triste no rancho,
depois que a mãe morreu
e abraçado ao chapéu,
rezou pedindo pra Deus,
que acomodasse a velhinha,
num cantinho lá do céu.

Tem certeza que suas preces,
pelo Pai serão ouvidas
e chegarão até ela,
a quem agradece a vida,
na frente de seu retrato,
sempre à luz de uma vela.

Ficou solito no rancho,
com a saudade, a lembrança
e sua sina terrena,
que lhe deixou ser criança,
adolescente e rapaz,
nos braços da velha buena.

Mas que fazer se o destino,
a todos nós vem traçado,
mesmo antes do nascer?
O jeito é estar preparado,
perdoar para ser perdoado,
pois também vamos morrer.