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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A ÂNSIA DE UM ENCONTRO

Foto de Giancarlo M. de Moraes
 
Lá fora, as moradas não são muito próximas. A vizinhança é bem espalhada. Um rancho cá, outro acolá e assim se vai.
           Fazendo parte deste cenário, dois ranchos eram separados por um rio e um mato que era pouco mais que um capão.
           Numa das moradas, havia um cachorro, que por sua “brabeza”, ficava sempre atado. Já nem sabia quanto tempo vivia assim. Na morada do outro lado do rio e encoberta pelo mato, também atada, uma cadela passava sua vida.
           Apesar de nunca terem se visto, os dois se namoravam à distância, através de apaixonados latidos e quando em vez, o faro do cachorro aquecia com a febre do cio.
           A ânsia de um encontro já durava um bom tempo, porém a chance era quase impossível, uma vez que seus donos não se descuidavam, e soltá-los, jamais.
           Certa tarde, o cachorro sentiu sede e foi até o cocho, onde sempre costumava beber. Nenhum pingo de água encontrou. Avistou mais afastada, uma gamela transbordando. A corrente o impedia de chegar até ela. Forçou, forçou e de repente a coleira cedeu e ele, quase não acreditando, viu-se solto.        
          O sol recolhia seus últimos raios e o lusco-fusco se colocou entre o dia e a noite.
           Afoito, o cachorro sorrateiramente foi se distanciando do seu rancho em direção à morada de sua amada. Seu coração corria mais que ele. Botou o peito n'água, atalhou pelo mato e ao sair dele, já era mais noite do que dia.
         Cauteloso foi se aproximando cada vez mais daquela que tanto lhe correspondeu. Mais uns passos e divulgou o vulto de uma pessoa e junto a ela a cachorra, que sem dúvida era o amor de sua vida.
         Levado pela emoção descuidou-se ao pular uma valeta, provocando um barulho, fazendo com que a pessoa o notasse, sendo confundido com um cachorro comedor de ovelhas.
         Um revólver desferiu certeiro tiro na cabeça, deixando o pobre animal ali no cavaco.
         Quando o peão aproximou-se para se certificar de que matara o cachorro, a cadela foi junto. Ele estava realmente morto, nem agonizou.
         O peão o reconheceu e viu que havia cometido um engano e retirou-se abichornado.
         A cadela alheia cheirou o cachorro morto e acompanhou o peão de volta ao rancho.


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