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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

ENCERRANDO A JORNADA

Foto de Giancarlo M. de Moraes
 
Lá pelo fim da tarde
o eco da voz do peão
galopa como um refrão
já encerrando a jornada
toma, toma, toma, toma
e num ritual corriqueiro
espalha pelo potreiro
pontas de cana cortada
 
O gado manso se chega
correspondendo ao chamado
algum arisco e desconfiado
espicha a língua e o pescoço
os porcos vem no entrevero
e os cuscos flor de campeiros
vão controlando o retoço
 
Um piazito de bombacha
fica por trás do moirão
mas tem um relho na mão
pra usar se for preciso
e completando o cenário
as comadres lá nas casas
ficam com a goela em brasa
de matear e bater guizo


sábado, 15 de dezembro de 2012

"ÊTA" RIO GAÚCHO DO SUL

De laranjeira do mato,
os espetos a capricho,
lenha buena de angico,
guajuvira e pitangueira,
vão braseando na valeta,
e quartos, costelas e paletas,
assando à moda campeira.
 
Um taura bem destorcido,
não se descuida da carne,
tranquilito sem alarde,
não deixa passar da hora,
branqueia nas gamelas a farinha
e as facas deixam as bainhas,
pra um churrasco a campo fora.
 
“Êta” terra hospitaleira,
da fartura e do índio macho,
do que dita tua bandeira,
da prenda linda, do chimarrão e churrasco!


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"RECUERDOS"

Foto de Giancarlo M. de Moraes

As nuvens num fim de tarde
galoparam pra o infinito
e eu mateando solito
galopei num devaneio
no pensamento me veio
recuerdos da minha infância
quando tinha aquela ânsia
de ver querências bem longe
conhecer pagos sei onde
de encurtar as distâncias


Me vi no colo da mãe
do pai do vô e da vó
ouvi até o corococó
do meu galo garnisé
a pena de caburé
fincada no meu chapéu
vi a regeira o sovéu
e uma garra de pelego
lembrança de um borrego
que me deu muito boléu


Me vi um guri descalço
calça curta de tirante
uma cinta de barbante
que veio atando o pacote
de um freio e um serigote
comprados de um andarilho
pra encilhar um potrilho
da doma de meu padrinho
cavalo flor de mansinho
como deu bueno o tordilho


Vi as casas, vi o terreiro
me vi dentro da mangueira
vi a vaca mais leiteira
vi o apojo nas canecas
angolistas, as marrecas
vi os porcos e as galinhas
e a petiça “gauchinha”
de orelha tesa e ligeira
quando estalava a soiteira
botando as vacas à tardinha

Me vi braceando no açude
e pescando lambaris
um casal de bem-te-vis
cantando dentro da tarde
vi os gansos num alarde
se demonstrando com entono
pra dizer quem era o dono
do território naval
numa tarde divinal
dessas que fazem no outono


Eu vi a água da sanga
bebi na concha da mão
soltei os meus pés no chão
na tabatinga vermelha
vi um enxame de abelhas
num oco se aquerenciando
vi o carneiro martelando
mandando água pras casas
e numa parte mais rasa
lambarizinhos prateando


Me vi frequentando a aula
na escola municipal
recém botando o buçal
das contas e do alfabeto
sentado num canto quieto
sempre atento e obediente
e no quadro lá na frente
a professora Manoela
não tinha arrego com ela
quando ralhava com a gente


Vi o balcão do bolicho
e também vi as prateleiras
vi as louças e chaleiras
enxadas, pás e machados
palas e ponchos pendurados
lampiões da marca aladin
chapéus, bombachas, selins
tecidos, linhas e rendas
e a guria da venda*
que eu queria pra mim
* hoje minha esposa


Vi a carreta na sombra
descansando no muchacho
ovelhas deitadas embaixo
e folhas secas por cima
vi a terneira brasina
de barbilha no focinho
vi um casal de canarinhos
na casa do João-de-barro
e o vô pitando um cigarro
de um fumo amarelinho


Vi meu pai jogando bocha
campo a fora e na estrada
me lembrei de uma bochada
que acertou numa “periá”
eu vi o caraguatá
que a coatiara se escondia
também vi as melancias
na lavoura do vizinho
e o canivete fininho
que as mais maduras partia


A infância foi me passando
como um filme na tela
verso da vaca amarela
e causos do Malazarte
os compromissos, as artes
com os guris da vizinhança
pescarias e melanças
e mangueiras no terreiro
sendo o maior fazendeiro
na fantasia de criança


Um relincho de cavalo
me despertou num repente
vim de volta ao presente
limpei os olhos escorrendo
senti o coração batendo
num compasso diferente
as lágrimas saem da vertente
quando a saudade nos bate
e ao encher de novo o mate
a água já não estava mais quente


sábado, 8 de dezembro de 2012

CONSOLANDO A SAUDADE

Foto de Giancarlo M. de Moraes


Vou pra fora ver meu rancho
a criação e as plantas
tirar o pó da garganta
boleando um trago de canha
relaxar a ossamenta
e entupir  as minhas ventas
com o ar puro da campanha

Vou andar de “pé no chão”
pra descarregar a carcaça
e fazer alguma arruaça
com a cuscada numa boa
um esparramo nos patos
que alçam voo sobre o mato
depois pousam na lagoa

 Experimentar o machado
a enxada e o facão
me enfurnar no galpão
remexendo a cacaria
depois eu lavo o "focinho"
e junto à cerca com o vizinho
“botemo as fofoca” em dia

Mais tarde contemplo a noite
pra encher os olhos de estrelas
só lá fora posso vê-las
sem o clarão da cidade
sinto o sereno caindo
e então quase dormindo
vou consolando a saudade

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

FAZ PARTE

Foto de Jorge Luiz Laranjeira

Peguei aquele aguaceiro
na minha viagem de vinda
encontrei a ponte caída
obrigando o zaino a nado
o cusco todo molhado
ajeitei sobre o arreio
com a sanga arriba do meio
mas saímos do outro lado

Oigalê cavalo bueno
que teve força no tutano
que deu mostra do pano
sem precisar a espora
é justamente nestas horas
que se vê o valor da doma
e um sinal da cruz se soma
pra Virgem Nossa Senhora

Cheguei no rancho de noite
com algumas horas de atraso
e não foi assim por acaso
que a prenda estava acordada
contava causos à piazada
pra que o sono não chegasse
batom e “ruge” na face
cheirosinha e bem penteada

Todos vieram pra o abraço
e um beijinho na testa
até o gato fez festa
se esfregando na minha bota
cocei o piolho da cocota
com a unha do minguinho
e fui distribuindo carinho
bem assim na maciota

Vou tirar umas semanas
até chegar o Natal
neste ano por sinal
são dez anos de casado
vou reunir os parentes
e dar serviço pra os dentes
num costelão bem assado

Daqui uns dias vou de novo
pra cumprir outra jornada
com chuva, sol ou geada
ou mesmo com a ponte caída
não posso “frouxar” o garrão
tenho que garantir o pão
faz parte da minha lida

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

...DAS TARDINHAS

Foto de Giancarlo M. de Moraes

         No canto da taipa do açude, depois do banho à tardinha, o piá fazia pratear aos últimos raios de sol os lambaris esfomeados.
         O caniço de taquara assobiava ao vento, naquele vai e vem, ao arremessar o anzol iscado, que mal batia n’água e a linha se estendia qual corda de violão.
         Que bichinho esganado e ligeiro! Tinha que estar atento, se não num vup, a isca se ia e quando isto acontecia, o peixe era xingado.
         Uma fina vara de alecrim desfolhada era aonde os já pegos, cuidadosamente iam sendo enfiados, lembrando uma réstia de cebola. Isto começou desde uma vez que os bem-te-vis davam voos rasantes, levando no bico os lambaris que pulavam na grama, assim que o piá atirava pra trás.
         A diversão terminava quando lá das casas gritavam pra ele botar as vacas.
        Ainda com o cabelo molhado, subia a coxilha levando em uma mão o sabão e na outra o caniço, a varinha com os peixes e uma cuia velha com o resto das minhocas que eram atiradas aos pintos no terreiro.
         A pequena “réstia de lambaris” ficava enfiada contra o capim da cozinha até o outro dia cedo para ser limpa por ele e ao longo da manhã, depois de passar na farinha de mandioca, a vó fritar na velha frigideira com a banha bem quente pra torrar bem “os espinhos”.
         Ao meio dia, já mastigando um frito, o piá com um brilho nos olhos, estufava o peito e dizia aos da casa:
         - “Se serve”!