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quarta-feira, 15 de abril de 2015

DALI EM DIANTE

Foto própria


      Pois este negro velho que lhes conta causos, hoje vai contar de sua vida. Não esperem ouvir uma estória de grande vulto, é como tantas que transitam pelos corredores desse mundão de Deus.
      Não me lembro desde a hora em que botei a goela no mundo, porque isto ninguém é capaz de lembrar, mas sempre tem um dia que fica marcado como o início.
      Era um dia de grande movimento na estância lá do hoje falecido Juca Batista. Gente de lá mesmo e carroças e mais carretas chegavam de longe e as pessoas iam se acomodando pelas sombras das figueiras que bordavam a grama que circundava as casas.
      Lembro “mal mal” que chegou numa “barata” um senhor bem vestido, que após o motorista abrir a porta do carro, desceu com um livro grande e grosso embaixo do braço.
      Sobre uma toalha branca bordada estendida numa mesa, foi colocado o livro e aquele senhor tirou uma caneta do bolso do casaco, colocou os óculos e pediu que o casal de noivos e as testemunhas se aproximassem e sentassem junto a mesa.
      Eu estava, na época, fechando meus quatro ou cinco anos de idade e foi dali em diante que lembro de mim.
      Depois da cerimônia, quando os convidados se acomodavam com seus licores, a mãe do seu Juca Batista, dona Ana Fausta, falou com aquele senhor do livro para que aproveitasse a ocasião e fizesse então o meu registro de nascimento, ficando ela mesmo minha madrinha.
      Dias depois, dona Ana Fausta foi a cidade e de lá trouxe uma folha de papel dizendo que aquele era o meu documento de registro e também trouxe umas roupas mais ajeitadas para que eu as usasse quando chegasse aquelas visitas importantes como dizia minha madrinha.
      Nunca fui tratado igual aos filhos e netos dela mas lembro que me dispensava carinho e atenção, mais que outros guris de lá e que acho que não tinham aquele “papel documento”, o que às vezes causava resingas dos demais da casa.
      Eu gostava muito dela, sempre tratando com respeito e fazendo as lidas por ela determinadas e também nunca me aproveitei da sua bondade para abusar ou tirar proveito das ocasiões.
      Um ano depois do meu registro, fui batizado quando da missa do padroeiro do lugar que era São Sebastião, daí meu nome. Não houve nada de especial, somente lembro de uma vela branca comprida com um tope de fita que permaneceu acesa na minha mão durante a fala do padre Bento.
      Chegou o dia que ela me mandou para a escola, pois sempre dizia que queria me ver trabalhando na cidade, bem vestido assim como aqueles que nas casas de comércio a ela atendiam.
      Três anos haviam se passado e minha madrinha adoeceu gravemente não tendo esperança de cura e veio a falecer, deixando um grande vazio na estância e maior ainda, dentro de mim.
      Seu Juca Batista também não durou muito. A filha mais velha dele não quis saber de voltar para a estância. Ficou na capital onde o marido, bem sucedido, tinha um hospital. O outro filho, o do meio, estudava na Europa e já traçava outros planos. Restou então o caçula, um pouco mais velho que eu e que muitas vezes se enciumou pela atenção que minha madrinha a mim dirigia.
      Sem o apoio dos mais velhos, deixei a escola e foi então solicitada minha presença junto as lidas do dia a dia, sem que pudesse cometer erros pois afinal, como dizia o patrãozinho eu era um “negro-branco”, palavras que eram usadas já pelo seu Juca, desde a época em que me lembro.
      E assim foi passando o tempo que não deu tempo para mim. Passei lidando, não tive um trabalho para andar bem vestido, não tive tempo de arrumar uma namorada, casar, ter filhos.
      Hoje com alguns fios de cabelos que restam, já tordilhos e com o papel do registro amarelado e furado pelas traças, levo a vida aqui por este galpão, onde ainda sinto razão de viver quando alguém se dispõe a ouvir meus causos.

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