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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

ATÉ A ALMA SENTE "COSCA"

Sedento por um surungo

e ansioso por um cambicho

me pilchei bem a capricho

e empanturrei a guaiaca

não sou de poupar pataca

quando me meto na farra

me solto das amarras

e saio chutando as estacas


Um trago pra ficar alegre

sem  dar bola pra riosca

até a alma sente "cosca"

quando se "garfeia" a percanta

o coração na garganta

querendo saltar pra fora

em sintonia com a hora

que a "moral" se levanta


Eu não tenho preferência 

somente pelas bonitas

pois naquela hora bendita

quando fraqueja o lampião 

todas merecem atenção 

e a penumbra iguala

a mais bonita da sala

com as feias que lá estão 


E assim na noite me prendo

saracoteando a minha moda

encrenca não me incomoda

trato todos como amigos

se a percanta nega o estribo

sou vaqueano e não me aperto

tenteio outra por perto

e saio esfregando umbigo


No choramingo da gaita

a noite se faz nanica

é aí que o pato bica

e o surungo incendeia

a percanta se boleia

num jeito de querendona

vem se esfregando a bichona

suspira e mimoseia


Dou uma chuliada pra o velho

sei que não é flor de cheiro 

um aceno pra o copeiro

servir um refri pra sogra

isto faço por manobra

num agrado contra gosto

e pra livrar algum enrosco 

pois sei a fama da cobra


E com os últimos acordes

vai baixando a polvadeira

"toca aí a saideira"

sai da goela de um borracho

e o gaiteiro mui buenacho

esgaça o fole com gana

dá o último beijo na cana

e um floreio nos baixos


Sovaqueio a percanta

num tiro de despedida 

com a guaiaca falida

e a bota gasta na sola

é  da lida e não dou bola

sou um taura feliz no mundo 

e sedento por surungo 

isto me basta e consola


segunda-feira, 11 de maio de 2026

TÁ DIFÍCIL

Um dia destes pensei em voltar pros rodeios

mas estou sem cavalo e mal de arreio

tenho rédeas e cabeçada  faltando o freio

e um toco de soiteira no cabo do "reio"


E nesta situação eu me vejo feio

de ter que laçar num cavalo alheio

até fica ruim de fazer um floreio

e correr o risco de um baita enleio


Ando mal da coluna e manco de um "jueio"

tenho que me cuidar quando me alço ou me apeio

e assim eu sinto um certo receio

de levar rodada e me quebrar no meio


Vejam a que ponto chega um vivente

quando a idade avança e o corpo sente

são poucas as coisas que ele concente

e muitos prazeres ficam só na mente


Então achei melhor esquecer o anseio

e passar o tempo nos saracoteios

mas no pensamento logo me veio

que eu danço pouco e sou muito feio


sexta-feira, 3 de abril de 2026

CAVALO FINÓRIO

Da infância,  sempre nos vem recordações, e transcrevo esta relembrada há poucos dias, quando reencontrei um "guri", parceiro de tantas outras.

Fazia parte de nossas brincadeiras as carreiras, tanto a cavalo quanto a pé. Estas levadas com muito afinco pela gurizada, que às vezes, até os adultos se achegavam para o comércio. 

Uma cancha reta, ao longo do arvoredo, onde desfilavam e corriam nossos parelheiros de taquara.

Certa feita, mais uma grande carreirada estava marcada e  então sugeri para um dos guris (o tal que reencontrei), de impressionar no dia, apresentando, cada um, um novo parelheiro. Para isso, iríamos em uma tapera que não ficava perto e estava difícil o acesso, tendo em vista a capoeira onde tinha, muito espinho, marimbondos, cobras e uma sanga barrancosa para passar.

O motivo da ida foi porque lá havia uma espécie de taquara que a gente conhecia como Taquara do Reino. Era fina e com um verniz natural, que para nós, seria um parelheiro delgaçado, pelo fino e brilhoso, em consequência, mais corredor, na nossa avaliação e batizados por  "FINÓRIOS".

Pois bem, no sábado que antecedia a carreira, após o almoço, hora da sesteada dos velhos, o sol tinia de quente. O guri pegou um facãozito, colocou na cintura e furtivamente deixamos as casas.

Quase uma hora de caminhada chegamos na tapera, suados e arranhados.

Mais meia hora rodeando o taquaral na escolha do melhor cavalo, até que satisfeitos iniciamos a maratona de volta.

Quando saímos da capoeira e entramos na estada, o guri ia um pouco mais à minha frente, então montei no meu parelheiro e disse pra ele que fosse largando.

O desafio foi aceito e ele também montou e mandou pata. Como eu tinha mais velocidade, em seguida passei por ele, porém não ouvi o bate patas dele.

Num relance, dei uma olhada para trás e vi que ele tinha "apeiado" e tava picando em pedaços a taquara e espraguejando em voz alta:

- Esta "porquera" também não presta.

Procuramos uma sombra para sentar e rolar de tanto rir.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

DE SAUDADE E MATE


Esta saudade enfurnada no meu peito

não toma jeito e cada dia mais me abate

tira meu sono e passo o tempo abichornado

e consolado na parceria de um mate


O dia a dia perde parte do seu brilho

então encilho novamente o chimarrão 

e num momento de silêncio e de calma

proseia a alma confortando o coração 


Um dia destes me boleio lá pra fora

mando embora a saudade que me abate

e no galpão juntito ao pé do fogo 

busco de novo a parceria de um mate

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

MAS VIERAM OS MOTORES

 

Na manivela do poço

a corda ia se enrolando 

e lentamente subia

o balde transbordando 


Água para a cozinha

e para a sede do pessoal

pra outras lidas e criação 

vinha lá do manancial


Uma pipa barriguda

tracionada por petiço

quase já se aposentando 

por seu tempo de serviço 


Mas vieram os motores

mais rápidos que a manivela

e o petiço e a pipa

se aposentaram com ela