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segunda-feira, 18 de março de 2019

DOS BAILES LÁ FORA


         Pois pra matar a ânsia do pessoal, chegou o dia do baile. Um sábado “véio” daqueles pra ninguém botar defeito! Todo mundo faiscando na ponta do pé e coceira no garrão.
         As moças desde cedo com os ferros de passar roupa engasgados de brasa, num esfrega esfrega minucioso. Dobrinha por dobrinha iam se ajeitando com o maior cuidado. Naqueles vestidos com babado, o cuidado era maior.
         Mais tarde a preocupação com o cabelo e as pinturas de unhas, “ruge” no rosto e mais pra hora de sair, então, uma borrifada de extrato e pó “cachimir buquê”. Uma flor no cabelo, uma pintinha preta no rosto, mais uma volteada frente ao espelho e tava pronta.
         A rapaziada se envolvia apenas com o sebo nas botas e um traquejo na melena. Já a velharada se preocupava com chapéu, relógio de bolso, sombrinha, leque...
         Ali pelas “ave maria”, iam deixando as casas rumo ao  velho e conhecido salão. Lá se juntava a vizinhança com gente vinda de mais longe. Uns conhecidos, outros estranhos, outros e mais outros.
         A “orquesta” sempre chegava primeiro “pramode” repassar a afinação, desencarangar os dedos e dar um trato no “estômego”. Geralmente uma gaita ou “bandona”, violão e pandeiro. Eram as chamadas de “três figuras”. Quando se tratava de bailes especiais, como da festa da paróquia ou casamento dos mais ricos, como diziam, já aumentavam as figuras tal qual uma bateria e "istormento" de sopro.
         Parafina e boa iluminação à querosene, quarto das moças no capricho, copa com balcão e uma sala onde serviam café com pão e o bife, este, para aquelas guaiacas mais polpudas.
         Os casados e as moças tinham acesso livre, enquanto os solteiros pagavam na entrada, onde recebiam uma fitinha que era presa com alfinete na gola do casaco, para identificação de estar “quites” com o porteiro. Sempre tinha alguém que tentava passar o “prendedor” para quem ainda não tivesse entrado. Uns por farra, outros por serem safados mesmo. Quando descobertos, eram convidados a se retirarem da sala.
         Desde o cair da noite a diversão era geral. Quando em vez, alguma rusga era abafada sem que perturbasse o embalo. Uma parada na música para renovar a parafina ou uma abastecida nos lampiões e seguia o baile animado com o salão cheio.
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         Madrugada alta. Velhas cochilando, namoriscos em alinhavo, outros já costurados, os velhos com o assunto escasso reencontravam o chapéu, a parafina quase vencida, a “orquesta” tocando mais baixo, o chiado dos pés dos dançarinos mais lento...       
         Aqueles que não tiveram sorte para o amor recostavam-se no balcão procurando consolar as mágoas numa borda de copo ou no bico de uma garrafa.
         À medida que o dia clareava, a luz do sol substituía os lampiões que aos pouco iam sendo apagados, bem como os acordes da “última marca”  que oportunizava aquele apertãozinho discreto na cintura da prenda.
        

domingo, 3 de fevereiro de 2019

RANCHO NINHO

Foto de Giancarlo M. de Moraes


No lusco-fusco o coqueiro
acena  pra noite mansa
no rancho a luz do candieiro
traz sossego pra criança

A criação se acalma
com o trato que deu o peão
e a china debruça a alma
sobre a chapa de um fogão

Com o aceno do coqueiro
e a luz trêmula do candieiro
desponta a lua por lá

E o rancho tal qual um ninho
se recheia de carinho
pra um peão uma prenda e um piá

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

MINHAS ESTRADAS


Enquanto a chuva mansa
molha aos pouco o capim
passeiam as velhas lembranças
pelas estradas em mim

Prosas, músicas, saudade
num vai e vem sem fim
e junto a felicidade
pelas estradas em mim

Vai-se a chuva lentamente
mas as lembranças presentes
pelas entradas em mim

Andejam sem rumo certo
sem permitir um deserto
pelas estradas em mim.

sábado, 19 de janeiro de 2019

FAMÍLIA ENROSCO



            Assim era conhecida a família do viúvo Bito, e a viúva Dola, que tiveram um casal de filhos.
         Com o passar do tempo, o viúvo casou-se com a nora, que ficara viúva. Tiveram um filho, que se tornou seu neto, cunhado e irmão do falecido pai.
         A nora que casou com o sogro, viuvou novamente e casou com um sobrinho do seu primeiro marido, passando este a ser seu esposo, neto, e logicamente sobrinho.
         O outro sobrinho, cunhado e neto, casou com a filha da viúva nascida deste casamento, que assim se tornou bisneta, neta, sobrinha, prima da viúva e prima do próprio marido, sendo ainda a viúva, vó e tia do genro.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

PELEADOR



Era chegado num trago
o tal Maneco Gonzaga
e por se destorcer numa adaga
ficou famoso no pago
em muitos queixos fez estrago
quase deixando do avesso
não era dele o começo
mas depois que encarniçava
a adaga velha lonqueava
nunca perdendo o endereço

Peleava com mais de um
ou quem viesse pela frente
virava num “bicho-gente”
não tinha de zunzunzum
reborqueava qual muçum
com o anzol lá no bucho
mas o desdobre do gaúcho
dando de fio e de prancha
taureava e abria cancha
sem precisar dos cartuchos

Muitos outros peleadores
se achavam igual a ele
porém era só aquele
com  a fibra dos gladiadores
e dentre outros fatores
que foram do berço herdados
não se sentia igualado
pois lhes faltava a conduta
primeiro se é recruta
para depois ser graduado

Por vezes até changueava
para rebanhar uns trocos
que quase sempre mui poucos
pra uma carreira ou uma tava
quando a coisa melhorava
se arranchava num galpão
rebenqueando a solidão
da anca até o focinho
pra que uma felpa de carinho
cravasse em seu coração

O tempo encurtou-lhe a vista
e o reumatismo a destreza
e a Santa Mãe Natureza
vai conduzindo o artista
que mesmo assim não despista
quando alguém lhe indaga
procurando a velha adaga
como quem não perde a cisma
pois ela foi batismo e crisma
do tal Maneco Gonzaga

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

LUA E SAUDADE

Foto de Giancarlo M. de Moraes


         A boca da noite mal tinha engolido o dia quando a lua cheia  e vaidosa veio cedo prateando as casas.
         O silêncio também chegou logo depois do trato da bicharada. O vento não arriscou nem um sibilo, deixando que a prenda do céu deslumbrasse a paisagem.
         Ainda não tinha chegado bem o frio mas uma aragem fazia as portas e janelas se manterem fechadas. No galpão, a cama do fogo-de-chão estava ainda com resquícios do último inverno.
         Era a última fase da lua cheia antes das férias do meio do ano. Breve a gurizada estaria solta num grande alarido, fazendo com que quando a próxima lua cheia aparecesse, o silêncio sumiria.
         Mesmo que as noites de lua clara fossem frias, as brincadeiras ao lado de fora das casas se prolongavam, muitas vezes, até com a participação dos adultos que se entreveravam, proporcionando risos causados pelos tombos malabarísticos daqueles mais velhos e gorduchos.
         Assim iam se passando os dias que hoje nos trazem saudade, toda vez que a lua cheia desponta com a boca da noite.