Sedento por um surungo
e ansioso por um cambicho
me pilchei bem a capricho
e empanturrei a guaiaca
não sou de poupar pataca
quando me meto na farra
me solto das amarras
e saio chutando as estacas
Um trago pra ficar alegre
sem dar bola pra riosca
até a alma sente "cosca"
quando se "garfeia" a percanta
o coração na garganta
querendo saltar pra fora
em sintonia com a hora
que a "moral" se levanta
Eu não tenho preferência
somente pelas bonitas
pois naquela hora bendita
quando fraqueja o lampião
todas merecem atenção
e a penumbra iguala
a mais bonita da sala
com as feias que lá estão
E assim na noite me prendo
saracoteando a minha moda
encrenca não me incomoda
trato todos como amigos
se a percanta nega o estibo
sou vaqueano e não me aperto
tenteio outra por perto
e saio esfregando umbigo
No choramingo da gaita
a noite se faz nanica
é aí que o pato bica
e o surungo incendeia
a percanta se boleia
num jeito de querendona
vem se esfregando a bichona
suspira e mimoseia
Dou uma chuliada pra o velho
sei que não é flor de cheiro
um aceno pra o copeiro
servir um refri pra sogra
isto faço por manobra
num agrado contra gosto
e pra livrar algum enrosco
pois sei a fama da cobra
E com os últimos acordes
vai baixando a polvadeira
"toca aí a saideira"
sai da goela de um borracho
e o gaiteiro mui buenacho
esgaça o fole com gana
dá o último beijo na cana
e um floreio nos baixos
Sovaqueio a percanta
num tiro de despedida
com a guaiaca falida
e a bota gasta na sola
é da lida e não dou bola
sou um taura feliz no mundo
e sedento por surungo
isto me basta e consola