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sábado, 27 de abril de 2013

MATEANDO SÓ

Foto própria
Vejo o verde do campo
na erva que cevo o mate
e uma saudade me bate
do galpão grande da estância
onde eu ouvia com ânsia
sentado no meu banquinho
os causos do seu Negrinho
nos meus tempos de criança

Aquele filho de escravo
que eu chamava de vô
muitas vezes me salvou
de apanhar com a bainha
quando eu correndo vinha
pedir sua proteção
gritava lá do galpão
deixa o menino madrinha

Tudo se foi com o tempo
também se foi o guri
e hoje mateando aqui
o banco não é o meu
o vô Negrinho morreu
levando os causos com ele
só resta uma espora dele
que de presente me deu

quarta-feira, 17 de abril de 2013

SURRANDO DE CIMA

Desenho de Felício Lampert



Ando riscando de esporas
um pingo comprado há pouco
atiro os cacos no lombo
e saímos num sufoco
esconde a cara nas mãos
se ergue longe do chão
em disparada de louco

Só domo a campo fora
pra mostrar que sou bagual
a espora come solta
vou tironeando o bocal
não me afrouxo pra beiçudo
pois cuiudo por cuiudo
temos muito por igual

Não tenho perna ensaboada
e  esta lida me fascina
tenho coragem de sobra
tapeio o folha de “abobra”
e vou surrando de cima

Faltando amadrinhador
encilho mesmo solito
o cavalo me conhece
quando lhe prendo o grito
bato com o mango na anca
alço a perna e boto banca
me enforquilho e me acredito

Talvez no fim de semana
já possa ir no povoado
pacholear e tirar prosa
com este pingo gateado
tomar uns tragos na venda
quem sabe laçar uma prenda
pra viver no meu costado

Se tiver a felicidade
de laçar uma prenda linda
dou um traquejo no meu rancho
em carinhos me desmancho
mas continuo na lida

terça-feira, 16 de abril de 2013

"APAXONADO"

Desenho de Felício Lampert

Se achegou no bolicho
com um olhar deslumbrado
e no balcão escorado
me historiou de um cambicho
que tal qual um carrapicho
bem enroscado na crina
uma mulata flor de china
com olhar de lua cheia
lhe encantou que nem sereia
só relampeando a retina

Pediu logo uma garrafa
daquela de alambique
e sem muito riquefique
eu lhe disse desabafa
onde tem fogo tem fumaça
tua cara não me engana
descasca logo a banana
que ela não tem caroço
desembucha esse pescoço
e manera mais na cana

Distante andava o pensamento
vagando alheio a tudo
permanecia ali mudo
como um guri desatento
resmungou por um momento
dando um suspiro dobrado
quadrou o corpo de lado
e mesmo sem olhar pra mim
com um timbre de clarim
gritou:  "tô apaxonado"!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

SONHO DE UM GURI

Foto de Giancarlo M. de Moraes



Assim que se viu taludo,
quis se mandar pelo mundo,
não pra ser mais um vagabundo,
andar sujo e melenudo.
Seu desejo era saber tudo,
sobre o que pode um vivente,
se misturar noutra gente,
matar a curiosidade
e ser um homem de verdade,
sem renegar a vertente.

Encilhou o baio ruano,
que saiu mascando o freio,
pra alimentar seus anseios,
com pinta de um veterano.
Acompanhando o Minuano,
batia cascos solito,
fumaceando um longo pito,
igual o avô fazia
e na imaginação ouvia
a ânsia lhe dando gritos.

Partiu com o aval do pai
e da sua mãe o soluço,
porém o forte aguço,
lá dentro dizia: vai,
só quem é fraco não sai.
Então ouvindo o consciente,
com sonhos de adolescente,
rumou ao desconhecido,
buscando da vida o sentido,
que palpitava na mente.

..................................................

A vida lhe deu essências,
como sonhou o guri,
andou daqui para li,
acumulou experiência.
Com o fardo da vivência,
e muitos anos na anca,
um dia voltou a estampa,
mascando reminiscências,
à porteira da querência,
um senhor de barba branca.

sexta-feira, 29 de março de 2013

...DAS REZAS



Prenda Divina do Céu,
mãe de Jesus e de nós,
de joelhos diante de vós,
no oratório do galpão,
junto ao fogo de chão,
assim que o dia amanhece,
faço pra ti esta prece,
pedindo tua proteção.

Sei que às vezes me desgarro,
por atitudes e pensamentos,
que são contra os mandamentos,
do Patrão aí das alturas,
mas sendo eu uma criatura,
ainda em provação,
me recolho em oração,
pra que a alma fique pura.

Por isto Prenda Divina,
peça a Deus o meu perdão
e diz aí ao Patrão,
iluminar meu caminho,
afastar todos os espinhos,
as pedras tirar da frente
e guardar pra este vivente,
nessa morada um cantinho!

terça-feira, 26 de março de 2013

ME DEI MAL

Foto de Giancarlo M. de Moraes

Que petiça desgranida,
veiaca,  dura de queixo
e atordoada das ideia.
Garrou de cismá comigo
e eu querendo dá um castigo,
fui me exibir pra platéia.

Não quis amadrinhador,
só os cachorros na volta,
pra fazer larida e farra.
Me benzi com a mão trocada
e gritei pra gurizada,
é assim que a gente se agarra!

Debochei botando a língua,
me lasquiando pro piazedo,
achando que era o tal.
Um deles sapateou
e a petiça se boleou,
ignorando o bocal.

Pulei assim mesmo em falso,
e me dei mal na saída,
montei mas não me ajeitei.
La pucha! Nossa Senhora,
me faltou o ar na hora
e no chão me espatifei.

Fingi ter me machucado,
saí mancando sem graça,
com a cara puro capim.
A petiça nem deu bola,
os cachorros abanavam a cola,
como que rindo de mim.

As garras dos meus pelegos
ainda estão lá na cerca,
testemunhando a façanha.
Mas volto praquele lombo,
não faz diferença um tombo,
pra um guri de campanha!


sábado, 9 de março de 2013

NOSSO RECANTO



Foto própria 
Correndo pra chegar lá fora
a rédea guiava a mão
e a saudade na espora
cutucava o coração

Quando entrei na porteira
rezei tirando o sombreiro
tendo a paz por companheira
e o silêncio por parceiro

A natureza abriu os braços
senti dela o abraço
refrescando até a alma

Assim é nosso recanto
onde o astral eu levanto
e a saudade se acalma

quinta-feira, 7 de março de 2013

SEMPRE SE DÁ UM JEITO

Desenho prório
Dos botões da alpargata,
fiz um brinco pra prendinha
e duma tirinha de lata,
um passador pra trancinha.


De um vasinho de plástico,
tirei uma pequena flor
e com um fiozinho de elástico,
se tornou um prendedor.

Ficou faceira a prendinha,
pois era só aquilo que eu tinha,
pra lhe dar bijuterias.


Fiquei feliz e satisfeito,
pois foi assim que achei o jeito,
pra ela ter suas fantasias!

AROMA, ODOR E FEDOR


TRÊS GÊMEOS QUE VISITAM NOSSO OLFATO.

O AROMA VEM DO CAFÉ,

O ODOR DO ZORRILHO, PARECIDO TAMBÉM É

E UM FEDOR QUASE IGUAL,

VEM DO PEIDO DE UM BAGUAL.

QUEM CONHECE ESSES IRMÃOS,

TENHO CERTEZA QUE ME DARÁ RAZÃO!