Páginas

Marcadores

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

NUMA DAQUELAS TARDES

Numa daquelas tardes ensolaradas de domingo de primavera, as nuvens de lã de ovelha bordavam o campo com suas sombras.


Pequenas flores dançavam aproveitando o ritmo e o assobio do vento.

Na estrada, a poeira de um  solitário cavaleiro participava da dança. 


Um bando de minúsculas aves surgiu lá no horizonte, e num voo irregular contra o vento, ficavam maiores ao passo que se aproximavam do açude onde as nuvens de lã se espelhavam e também projetavam as sombras.


Da frente do rancho, o pai vigiava a gurizada que num corre corre frenético, à beira d'água, manejava os caniços, vez por outra fisgando lambaris que reluziam ao sol.


Numa daquelas tardes, lá estava eu.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

AO TRANQUITO


Com as rédeas soltas

sobre as crinas cruzadas

ao passo na estrada

o Taura se foi

e a velha carreta

de muitas jornadas

rodava cansada

seguindo os bois


E o sol declinando

no rubro poente

refletiu na corrente

da água do rio

levando o dia

pra mais um pernoite 

e na boca da noite

a boieira surgiu


E o Taura montado

vislumbrava a silhueta

da velha carreta

no jugo dos bois

de arreio sovado

prosseguiu noite adentro

e num tranquito lento

assobiando se foi

sábado, 22 de junho de 2024

DIA DE FOLGA

 


O Salvador cheio de amor

encilhou o baio e foi pras gurias

O Ademir não quis sair

tava de luto por perder a tia

e o Ademar saiu pra tentear

a filha solteira da dona Maria


O Natalício tratava do vício 

esfarelando fumo na palma da mão 

o velho Pedro contava nos dedos

quantos dias trabalhou de peão 

e o Diogo armava o fogo

pra mode assar um capão 


O Altivo já com o pé no estrivo

sentia a ânsia do fim de semana

o Honorato com mais três ou quatro

deram o fim no garrafão de cana

o Santiago se passou no trago

e estirado dormia na grama

terça-feira, 18 de junho de 2024

PACHOLEANDO

 



Uso pilcha porque gosto

e não pra fazer agrado

trago isto por legado

e é assim que eu penso

pois neste Rio Grande imenso

meu avô peleou pilchado

com Ideal Colorado

simbolizado no lenço 


E foi por causa deste lenço 

atado no meu pescoço 

que fui chamado de grosso 

no meio dos cola fina 

mas dei a volta por cima

sem usar os meus "talher"

e com meu tino por mulher

fiquei com a mais linda china


(Poesia batizada pelo meu amigo Arleo Puccini Cezar)

sexta-feira, 24 de maio de 2024

FORTE E GUAPO




Cousa braba meu Rio Grande

esta enchente que te afoga

mas coragem tens de sobra

demonstrada nas peleias

e o teu povo não se enleia

porque é forte e guapo

trazendo o Sangue Farrapo

caudaloso em suas veias

quarta-feira, 22 de maio de 2024

GAUDÉRIO

 


Levaram o Chico Ruivo!

Assim correu a notícia,

foi preso pela polícia,

lá no bolicho do Gringo.

Disseram que foi sorrindo

no meio de dois soldados,

de cavalo cabresteado

numa tarde de domingo.


E foi também num domingo,

que apareceu o tal cuera.

Não se sabia quem era

e por ninguém conhecido.

Tinha um olhar atrevido,

em se tratando de china

e a cor de bronze na crina,

que lhe forjou o apelido.


Deixou um herdeiro no ventre,

de uma chinoca crinuda,

de apelido Topetuda,

biscateira e separada,

deixou uma égua bragada,

que ficou sem ter serviço 

e em conta no bolicho,

uma pistola empenhada.

sábado, 27 de abril de 2024

O PEALO DO AMOR

 


O Taura num fim de semana

saiu pra golpear uma cana

e retoçar num surungo

com um talagaço no liso

se sentiu no paraíso 

quando a gaita deu um resmungo


Depois de uns sambas com Fanta

pescoçeou uma percanta

e saiu pedindo cancha

dando conta do recado

num xote bem figurado 

pois era herdeiro da dança


E era dele a bolada

com a percanta amorenada

e no cabelo uma flor

tinha um olhar de lua

que o taura não recua

e se desmancha em amor


Um cochicho no ouvido

foi logo correspondido

com  um olhar de malícia

e o Taura que não era bobo

sentiu estar ganho o jogo

e amiudou as carícias 


Com mais uns sambas com Fanta

e a conquista da percanta

sentiu-se dono do mundo

e o amor com seu embalo

no Taura deu um pealo

no retoço do surungo


Depois tinindo as esporas

levou a percanta embora

quando o dia amanheceu

e por aquele olhar de malícia 

que aguçou as carícias 

mais um rancho se ergueu

terça-feira, 16 de abril de 2024

VOVÓ BELA






"Larguem de ser tolos miúdos"

dizia a vovó pra nós

com forte exaltação na voz.

Porém depois do sermão,

nos acariciava com a mão.

Hoje lembro  a Vó Bela,

sentada na banqueta dela

socando arroz no pilão.


Um relho cabo comprido

tinha sempre bem à mão,

pra espantar a criação 

que em sua volta alardeava,

com os cachorros ralhava

quando chegava alguém,

a todos fazia o bem

e lindos causos contava!


De noite depois da janta,

sentados perto do fogo,

na hora alegre do jogo,

de baralho ou de pausinhos,

a vó com muito carinho

e moderação na fala,

dava um punhado de balas

pra os da casa e os vizinhos.


Quando chegava o sono

e a gurizada boleava,

a  vovó Bela arrumava,

pra cada um uma cama

e com postura de dama,

depois do Sinal da Cruz,

agradecia a Jesus

e do lampião soprava  a chama.


Saudade minha Vovó Bela,

é a herança que tenho.

Lembro tu como um desenho

bem bonito e colorido,

também lembro do vestido

que nos domingos usavas

e no espelho te olhavas

com o cabelo "lambido".


As travessuras do passado,

ficaram pra trás no tempo

e hoje quando me sento 

em frente ao teu retrato,

vejo um rosto sensato

me olhando com um sorriso,

com o teu cabelo liso,

vem a saudade de fato.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

ORRE DIACHO

 


Uma bordoada na melena 

com gosto força e jeito

pra que o diabo do respeito 

fosse imposto na sala

e num chuvisco de bala

botaram o maula pra fora

pois dançava de espora

sem bombacha e só de pala


Foi embretado na cerca

sem ninguém pra uma ajuda

calçado numa bicuda

grelou o "zóio" que nem sapo

mas com destreza de gato

boteou igual uma serpente

e abriu cancha novamente

correu e ganhou o mato


Enroscado nas esporas

tonteou e caiu de bruços 

e o sangue brotava em tufos

mas continuou o alvoroço 

e só terminou o retoço

e aliviaram a carga

quando chegaram os de farda

sacando os "berro grosso"


Um atirava pra cima

outro atirava pra baixo

se espalharam os machos

e debandou o mulherio

a cachorrada sumiu

o maula limpou o peito

e gritou então com respeito

vão pra........................... PQP


segunda-feira, 18 de março de 2024

EU E O CUSCO



Tropeando num solaço

minha sombra acompanhava

e nela o cusco troteava

sem precisar da espora

com toda língua pra fora

lambia a própria baba

talvez sonhando com a água 

essencial naquela hora


Senti dó do velho cusco

que ali troteava comigo 

fiel parceiro e amigo

sempre pronto e voluntário 

atento e solidário 

nunca refugou parada

não tem carteira assinada

e nem protesta por salário 


É cruza da minha cadela

com um cachorro do vizinho

e já desde filhotinho

foi se apegando comigo

nunca sofreu um castigo

nem foi preso por corrente

pois quem se apega na gente

a gente tira pra amigo


E a lida do dia a dia

que vai na minha garupa 

às vezes arma arapucas

que preciso de socorro 

então ao cusco recorro

lembrando um ditado antigo 

"Mais vale um cachorro amigo

  do que um amigo cachorro"