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Foto própria
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Pois este
negro velho que lhes conta causos, hoje vai contar de sua vida. Não esperem
ouvir uma estória de grande vulto, é como tantas que transitam pelos corredores
desse mundão de Deus.
Não me
lembro desde a hora em que botei a goela no mundo, porque isto ninguém é capaz
de lembrar, mas sempre tem um dia que fica marcado como o início.
Era um
dia de grande movimento na estância lá do hoje falecido Juca Batista. Gente
de lá mesmo e carroças e mais carretas chegavam de longe e as pessoas iam se
acomodando pelas sombras das figueiras que bordavam a grama que circundava as
casas.
Lembro
“mal mal” que chegou numa “barata” um senhor bem vestido, que após o motorista
abrir a porta do carro, desceu com um livro grande e grosso embaixo do braço.
Sobre uma
toalha branca bordada estendida numa mesa, foi colocado o livro e aquele senhor
tirou uma caneta do bolso do casaco, colocou os óculos e pediu que o casal de
noivos e as testemunhas se aproximassem e sentassem junto a mesa.
Eu estava,
na época, fechando meus quatro ou cinco anos de idade e foi dali em diante que
lembro de mim.
Depois da
cerimônia, quando os convidados se acomodavam com seus licores, a mãe do seu
Juca Batista, dona Ana Fausta, falou com aquele senhor do livro para que
aproveitasse a ocasião e fizesse então o meu registro de nascimento, ficando
ela mesmo minha madrinha.
Dias
depois, dona Ana Fausta foi a cidade e de lá trouxe uma folha de papel dizendo
que aquele era o meu documento de registro e também trouxe umas roupas mais ajeitadas
para que eu as usasse quando chegasse aquelas visitas importantes como dizia
minha madrinha.
Nunca fui
tratado igual aos filhos e netos dela mas lembro que me dispensava carinho e
atenção, mais que outros guris de lá e que acho que não tinham aquele “papel
documento”, o que às vezes causava resingas dos demais da casa.
Eu
gostava muito dela, sempre tratando com respeito e fazendo as lidas por ela
determinadas e também nunca me aproveitei da sua bondade para abusar ou tirar
proveito das ocasiões.
Um ano
depois do meu registro, fui batizado quando da missa do padroeiro do lugar que
era São Sebastião, daí meu nome. Não houve nada de especial, somente lembro de
uma vela branca comprida com um tope de fita que permaneceu acesa na minha mão
durante a fala do padre Bento.
Chegou o
dia que ela me mandou para a escola, pois sempre dizia que queria me ver
trabalhando na cidade, bem vestido assim como aqueles que nas casas de comércio
a ela atendiam.
Três anos
haviam se passado e minha madrinha adoeceu gravemente não tendo esperança de
cura e veio a falecer, deixando um grande vazio na estância e maior ainda,
dentro de mim.
Seu Juca
Batista também não durou muito. A filha mais velha dele não quis saber de
voltar para a estância. Ficou na capital onde o marido, bem sucedido, tinha um
hospital. O outro filho, o do meio, estudava na Europa e já traçava outros
planos. Restou então o caçula, um pouco mais velho que eu e que muitas vezes se
enciumou pela atenção que minha madrinha a mim dirigia.
Sem o apoio
dos mais velhos, deixei a escola e foi então solicitada minha presença junto as
lidas do dia a dia, sem que pudesse cometer erros pois afinal, como dizia o
patrãozinho eu era um “negro-branco”, palavras que eram usadas já pelo seu
Juca, desde a época em que me lembro.
E assim
foi passando o tempo que não deu tempo para mim. Passei lidando, não tive um
trabalho para andar bem vestido, não tive tempo de arrumar uma namorada, casar,
ter filhos.
Hoje com
alguns fios de cabelos que restam, já tordilhos e com o papel do registro
amarelado e furado pelas traças, levo a vida aqui por este galpão, onde ainda
sinto razão de viver quando alguém se dispõe a ouvir meus causos.