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quarta-feira, 6 de maio de 2015

TROVADOR SARARÁ

Num comércio de carreiras
conheci o tal Rosalino
um sarará teatino
domador e bom na trova
tinha na cara uma cova
herança de um três listas
um rasgo arriba da vista
vestígio de alguma sova

Chapelão com vincha escura
nas orelhas desabado
um lenço bem colorado
já com as franjas esfapiadas
bota campeira esfolada
bombacha preta bem ruça
mas um sorriso na fuça
de ganhar qualquer parada

Se achegou para a copa
cabresteando uma ruana
num gesto pediu uma cana
que golpeou num talagaço
e com a cana do braço
meio que enxugou o bigode
e no cavanhaque de bode
ajeitou o barbicacho

Até me agradei do taura
pelo seu jeito simplório
e provoquei seu repertório
com um verso no repente
e já no mas o vivente
tapeou na testa o chapéu
e levantando a mão pra o céu
saudou o povo presente

Tinha ternura na alma
e um timbre que dava gosto
a alegria no rosto
e um compasso bonito
mirava o infinito
sendo o dono de si
e até lhe convenci
pra que trovasse solito

E assim foi o sarará
tarde a dentro na porfia
e prometeu que outro dia
voltaria outra vez
gostei da sua altivez
e abracei diante do povo
pois se ele vir de novo
talvez eu trove - talvez

quarta-feira, 15 de abril de 2015

DALI EM DIANTE

Foto própria


Pois este negro velho que lhes conta causos, hoje vai contar de sua vida. Não esperem ouvir uma estória de grande vulto, é como tantas que transitam pelos corredores desse mundão de Deus.

Não me lembro desde a hora em que botei a goela no mundo, porque isto ninguém é capaz de lembrar, mas sempre tem um dia que fica marcado como o início.

Era um dia de grande movimento na estância lá do hoje falecido Juca Batista. Gente de lá mesmo e carroças e mais carretas chegavam de longe e as pessoas iam se acomodando pelas sombras das figueiras que bordavam a grama que circundava as casas.

Lembro “mal mal” que chegou numa “barata” um senhor bem vestido, que após o motorista abrir a porta do carro, desceu com um livro grande e grosso embaixo do braço.

Sobre uma toalha branca bordada estendida numa mesa, foi colocado o livro e aquele senhor tirou uma caneta do bolso do casaco, colocou os óculos e pediu que o casal de noivos e as testemunhas se aproximassem e sentassem junto a mesa.

Eu estava, na época, fechando meus quatro ou cinco anos de idade e foi dali em diante que lembro de mim.

Depois da cerimônia, quando os convidados se acomodavam com seus licores, a mãe do seu Juca Batista, dona Ana Fausta, falou com aquele senhor do livro para que aproveitasse a ocasião e fizesse então o meu registro de nascimento, ficando ela mesmo minha madrinha.

Dias depois, dona Ana Fausta foi a cidade e de lá trouxe uma folha de papel dizendo que aquele era o meu documento de registro e também trouxe umas roupas mais ajeitadas para que eu as usasse quando chegasse aquelas visitas importantes como dizia minha madrinha.

Nunca fui tratado igual aos filhos e netos dela mas lembro que me dispensava carinho e atenção, mais que outros guris de lá e que acho que não tinham aquele “papel documento”, o que às vezes causava resingas dos demais da casa.

Eu gostava muito dela, sempre tratando com respeito e fazendo as lidas por ela determinadas e também nunca me aproveitei da sua bondade para abusar ou tirar proveito das ocasiões.

Um ano depois do meu registro, fui batizado quando da missa do padroeiro do lugar que era São Sebastião, daí meu nome. Não houve nada de especial, somente lembro de uma vela branca comprida com um tope de fita que permaneceu acesa na minha mão durante a fala do padre Bento.

Chegou o dia que ela me mandou para a escola, pois sempre dizia que queria me ver trabalhando na cidade, bem vestido assim como aqueles que nas casas de comércio a ela atendiam.

Três anos haviam se passado e minha madrinha adoeceu gravemente não tendo esperança de cura e veio a falecer, deixando um grande vazio na estância e maior ainda, dentro de mim.
  
Seu Juca Batista também não durou muito. A filha mais velha dele não quis saber de voltar para a estância. Ficou na capital onde o marido, bem sucedido, tinha um hospital. O outro filho, o do meio, estudava na Europa e já traçava outros planos. Restou então o caçula, um pouco mais velho que eu e que muitas vezes se enciumou pela atenção que minha madrinha a mim dirigia.

Sem o apoio dos mais velhos, deixei a escola e foi então solicitada minha presença junto as lidas do dia a dia, sem que pudesse cometer erros pois afinal, como dizia o patrãozinho eu era um “negro-branco”, palavras que eram usadas já pelo seu Juca, desde a época em que me lembro.

E assim foi passando o tempo que não deu tempo para mim. Passei lidando, não tive um trabalho para andar bem vestido, não tive tempo de arrumar uma namorada, casar, ter filhos.
  
Hoje com alguns fios de cabelos que restam, já tordilhos e com o papel do registro amarelado e furado pelas traças, levo a vida aqui por este galpão, onde ainda sinto razão de viver quando alguém se dispõe a ouvir meus causos.

segunda-feira, 30 de março de 2015

O MAIS AMIGO DOS AMIGOS

Patrão Celestial buenacho,
Pai de toda a humanidade,
me sinto bem à vontade,
batendo estribos Contigo,
se eu preciso de abrigo,
quando fico abichornado,
tenho Tu no meu costado,
o mais Amigo dos amigos.

Não Te vejo, mas Te sinto,
em tudo aquilo que faço,
e encontro nos Teus braços,
a necessária guarida,
para continuar nesta vida,
como um modesto peão,
pedindo o Teu perdão,
quando fraquejar na lida.


domingo, 15 de março de 2015

PUXÃO DE ORELHA

Tive que ir pra cidade
porque a coisa andava osca
tava escassa a pegada
andava atirado às moscas
me conformando na canha
indo pra o lado do vício
e a conta se espichando
no caderno do bolicho

Cheguei lá de tardezita
procurando um conhecido
ele tinha se mudado
e eu fiquei meio perdido
me arrinconei num banco
na pracinha de brinquedos
mas se tivesse alguns pilas
me ia pro chinaredo

Passei a noite me espiando
sem poder pegar no sono
cedito vaguei nas ruas
qual um cachorro sem dono
cumprimentava as pessoas
não me davam atenção
e pela primeira vez na vida
que rezei uma oração

"Pai nosso que está no céu
bendito seja o Teu nome
Senhora Virgem Maria
tenha pena deste homem
Patrão Velho mande alguém
que venha em meu auxílio
pode ser o Jesus Cristo
que como eu é Teu filho"

Eu até me arrepio
porque o Pai do Céu me ouviu
daquele dia em diante
um bom serviço surgiu
cama, mesa e boa pilcha
ia me arribando aos poucos
dava pra pagar os bicos
e ainda sobrava uns trocos

Trabalho honestamente
tomei jeito e consciência
larguei do vício e da farra
vim visitar a querência
trouxe a china na garupa
que me tapa de carinho
a guaiaca recheada
e num petiço o piazinho

Tenho muito a agradecer
ao nosso Patrão do Céu
elevo meu pensamento
bem arriba do chapéu
nada é acaso na vida
tudo tem razão de ser
se Ele puxou minha orelha
foi só pra eu entender

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O "TITI-TÁTI"

E as horas eram arrastadas pelos ponteiros daquele relógio antigo que morava num prego na parede da sala, cujo pêndulo dançava no ritmo do tique-taque.

E as crianças de outrora, com os olhos de “bulita” admiravam aquele pêndulo e acompanhavam com a cabeça para um lado e para o outro no mesmo compasso e o chamavam de “titi-táti”. Diziam a elas que o relógio tinha alma e ela é que embalava o pêndulo, daí então arregalavam ainda mais os olhos.

Durante a noite, mesmo solito na sala, o velho relógio continuava seu tranco e era quando mais se ouvia, de hora em hora, seu gongar quebrando o silêncio e as crianças de outrora sentiam medo de passar por lá.

Os números, que na verdade eram letras (I-X-V) demarcando as horas, eram magras e elegantes. Usavam um traje preto impecável que as fazia sobressair, contrastando com o branco do mostrador. Os ponteiros dourados também eram magros e elegantes. O menor era mais preguiçoso.

Eram companheiros do “titi-táti” um espelho emoldurado com madeira envernizada da mesma espécie da dele, um retrato oval e um porta-chapéus, também de madeira pintado de preto.

Desde que foi pendurado lá, saiu somente uma vez para ir ao médico, mas o mal teve cura e logo voltou para a harmonia da sala e alegria dos companheiros de parede.

E as salas de hoje não ouvem mais as gongadas. A nova geração do “titi-táti” é silenciosa e as crianças de agora, não param para balançar a cabeça à sua frente e sim curvando a espinha a teclá-lo freneticamente, pouco se importando se marca ou não as horas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

QUEM SABE UM MATE?

Será que vale à pena
ficar remoendo solito
com o olhar no infinito
descabelando a melena
pra branquear antes do tempo?
Deixa de lado os contratempos
porque a vida continua
mesmo que nos cravem a pua
não dá pra frouxar os tentos

Quem sabe um mate te faça bem
e ajude a esquecer a mágoa?
Quem sabe a erva e a água
te faça esquecer o alguém
que te causa esses suspiros?
Pois o tempo faz seu giro
e nos mostra a realidade
talvez sem deixar saudade
e é aí que me refiro

Quem sabe daqui uns dias
te venham ventos melhores
e aqueles momentos piores
deem lugar à alegria
que sempre viveu contigo?
Segue batendo estribo
e não leva o caso a sério
pois para um índio gaudério
é muito fraco o motivo

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CARINHO E BOIA QUENTE

Foto Própia

Pra banda de um fim de tarde
vinha sovado da lida
meu zaino todo suado
o cusco mais que assoleado
mas a guaiaca sortida

Matei a sede dos dois
no passo do carrapicho
refresquei minhas canelas
e o pó só tirei da goela
com a água benta do bolicho

Primeiro fiz sinal da cruz
e pro santo uma oferenda
as contas botei em dia
comprei doce pras crias
e um presente pra prenda

E já de noite no rancho
ganhei beijos e abraços
comi uma boia quente
carinho pra um vivente
se refazer do cansaço

O cusco de pança cheia
e o zaino já na cocheira
amanhã emendo o laço
ensebo de novo o basto
e sento o fio da carneadeira

Daqui uns dias outra jornada
sem conhecer o lugar
vida de peão é assim
mas o que conforta enfim
é ter pra onde voltar

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

MALUDUCO

       No cambiar do dia despertou um vento até que frio para o mês de novembro.
         - Que tempo maluco! Alguém comentou.
         - Maluco ou caduco? Retrucou o velho.
         - Como?
         - Ora, vocês vivem dizendo que velho quando faz alguma coisa em desacordo está caduco. Maluco é outra coisa.
         - E o que tem a ver com o tempo?
         - O tempo não é mais o mesmo. O tempo passou e ninguém notou. Também está velho, portanto c+a = ca,  d+u = du,  c+o = co, CADUCO, entenderam?
         - Ah! Não vem me dizer que agora vais virar filósofo, ou nesse caso o certo é virar maluco, m+a = ma, l+u = lu,  c+o = co, MALUCO?
         - Vão se “afumentá”. Vocês ainda não saíram do coeiro e querem saber mais que todo mundo. Isso pra mim sim que é maluquice. Quando falta argumento dizem que a gente é caduco. Um dia vocês dirão: o velho tinha razão.
         Quando esse dia chegar, os malucos estarão caducos e os caducos tentando aconselhar os malucos.
         Bah! Agora já nem sei o que sou. Talvez seja MALUDUCO.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

E ENFIM, CHEGA O DIA

Foto de Giancarlo M. de Moraes
Quando o mês de outubro já deixava a estrada, e o novembro despontava na curva, as conversas sobre o Natal e Fim de Ano eram mais frequentes.

Isto era um prenúncio de que as férias escolares também estavam próximas e a euforia recheada de ansiedade tomava conta da gurizada. Tanto os da cidade quanto os lá de fora.

Aqui a gente se tornava bonzinho, mais obediente do que de costume, mais atencioso, mais cumpridor das tarefas. Passava mais tempo em volta dos livros.

Os de lá, “ardilavam” brincadeiras e safadezas. Faziam dieta para os cuscos com o propósito de que ficassem leves ao correr as lebres e desentocar tatus.

Pegavam mais seguido os cavalos que andavam de lombo meio duro e seriam sovados nas pescarias e nos passeios. Ah! Os caniços e as linhas também tinham retoques. Troca de anzóis rombudos, chumbadas, maçarocas...

As forquilhas e os “corinhos” para bodoque tudo já pronto, esperavam as borrachas que os daqui levariam.

A paisagem de lá parece que sabe quando a gente vai e muda a roupa ali pela primavera e se conserva cheirosa a nos esperar. O sol nem se fala, a lua então... Até os vaga-lumes acham que são estrelas.

E enfim, o dia da chegada lá. Parece que nada mudou da última vez, porque com o alarido do encontro a gente não se prende aos detalhes, mas alguém notou o poste da luz.

As férias a partir de agora, não terão mais aquelas noites de picumã com cheiro de querosene.