quarta-feira, 15 de julho de 2015
domingo, 12 de julho de 2015
FOI-SE COM O TEMPO
Na estrada cada carreteiro com seu destino e nas casas cada
pessoa com sua história.
E na carga das carretas iam se ajeitando as quitandas e nas
casas as moças espiavam pela janela os carreteiros. Por baixo das carretas, os
cuscos tranqueavam assoleados e os das casas, saiam para a estrada pra pelear.
E os bois na estrada, cutucados pela picana de taquara,
puxavam preguiçosamente a carreta e nas casas, os bois ruminavam no potreiro, à
sombra das taquareiras.
Na estrada, a fumaça dos palheiros serpenteava em
direção ao céu e nas casas, a fumaça dos fogões esgueirava-se por entre o
galpão e o arvoredo.
Na estrada, a voz cantada do carreteiro chamava a junta da
ponta e nas casas o canto de uma mãe fazia a cria dormir.
E na estrada, hoje, a carreta não passa mais e nas casas as
moças não espiam mais na janela e os cuscos latem por trás da tela.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
CHIMARREANDO COMIGO
Nas
horas que chimarreio,
na
companhia de mim,
o
pensamento faz um passeio,
naqueles
tempos que vim.
Minh’alma
rejuvenesce,
com
a seiva verde espumosa.
É
um ritual tal uma prece,
do
meu eu comigo em prosa.
A
bomba me traz a essência,
enquanto
percorro a consciência,
mesmo
estando alheio.
E
ao secar a cambona,
a
cuia ronca chorona,
findando
assim o passeio!
quinta-feira, 2 de julho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
O PEÃO E A LIDA
![]() |
| Foto de Carlos Alberto Tatsch |
A lida de um peão
solteiro
pelas fazendas do
pago
é dura mas sempre há
tempo
pra uma volteada e
um trago
procurar um rabo de
saia
na hora de um afago
prosear com os
parceiros
carrerear os
parelheiros
espairecendo os
encargos
Tirar leite na
mangueira
quebrar queixo de
aporreado
se perder coxilha
afora
no feitio de um
alambrado
lavrar terra sem
trator
com boi zebu aluado
dar boia pra criação
prestar contas pro
patrão
sobre a situação do
gado
Carnear e curtir o
couro
estaqueado com
taquara
aproveitar o tempo
bom
prender fogo numa
coivara
ir na venda pra
Patroa
isto não é coisa
rara
e quando recebe os
pilas
dar uma volta na
vila
pois quem ta vivo
não para
Cortar lenha de
machado
tirar palanque no
mato
nos dias que está
chovendo
lidar nas cordas com
tato
pra refazer os
estragos
da lida e dente de
rato
também reunir o
rebanho
naqueles dias do
banho
pra controlar os
carrapatos
E para a banda da
noite
busca o abrigo do
galpão
pra dar um jeito na
boia
e sorver um
chimarrão
depois se espichar
num catre
onde vem recordação
da prenda lá do
povoado
e o namoro
alinhavado
na borda do coração
quarta-feira, 6 de maio de 2015
TROVADOR SARARÁ
Num
comércio de carreiras
conheci
o tal Rosalino
um
sarará teatino
domador
e bom na trova
tinha
na cara uma cova
herança
de um três listas
um
rasgo arriba da vista
vestígio
de alguma sova
Chapelão
com vincha escura
nas
orelhas desabado
um
lenço bem colorado
já
com as franjas esfapiadas
bota
campeira esfolada
bombacha
preta bem ruça
mas
um sorriso na fuça
de
ganhar qualquer parada
Se
achegou para a copa
cabresteando
uma ruana
num
gesto pediu uma cana
que
golpeou num talagaço
e
com a cana do braço
meio
que enxugou o bigode
e
no cavanhaque de bode
ajeitou
o barbicacho
Até me agradei do taura
pelo
seu jeito simplório
e
provoquei seu repertório
com
um verso no repente
e
já no mas o vivente
tapeou
na testa o chapéu
e
levantando a mão pra o céu
saudou
o povo presente
Tinha
ternura na alma
e
um timbre que dava gosto
a
alegria no rosto
e
um compasso bonito
mirava
o infinito
sendo
o dono de si
e
até lhe convenci
pra
que trovasse solito
E
assim foi o sarará
tarde
a dentro na porfia
e
prometeu que outro dia
voltaria
outra vez
gostei
da sua altivez
e
abracei diante do povo
pois
se ele vir de novo
talvez
eu trove - talvez
quarta-feira, 15 de abril de 2015
DALI EM DIANTE
| Foto própria |
Pois este
negro velho que lhes conta causos, hoje vai contar de sua vida. Não esperem
ouvir uma estória de grande vulto, é como tantas que transitam pelos corredores
desse mundão de Deus.
Não me lembro desde a hora em que botei a goela no mundo, porque isto ninguém é capaz de lembrar, mas sempre tem um dia que fica marcado como o início.
Era um dia de grande movimento na estância lá do hoje falecido Juca Batista. Gente de lá mesmo e carroças e mais carretas chegavam de longe e as pessoas iam se acomodando pelas sombras das figueiras que bordavam a grama que circundava as casas.
Lembro “mal mal” que chegou numa “barata” um senhor bem vestido, que após o motorista abrir a porta do carro, desceu com um livro grande e grosso embaixo do braço.
Sobre uma toalha branca bordada estendida numa mesa, foi colocado o livro e aquele senhor tirou uma caneta do bolso do casaco, colocou os óculos e pediu que o casal de noivos e as testemunhas se aproximassem e sentassem junto a mesa.
Eu estava, na época, fechando meus quatro ou cinco anos de idade e foi dali em diante que lembro de mim.
Depois da cerimônia, quando os convidados se acomodavam com seus licores, a mãe do seu Juca Batista, dona Ana Fausta, falou com aquele senhor do livro para que aproveitasse a ocasião e fizesse então o meu registro de nascimento, ficando ela mesmo minha madrinha.
Dias depois, dona Ana Fausta foi a cidade e de lá trouxe uma folha de papel dizendo que aquele era o meu documento de registro e também trouxe umas roupas mais ajeitadas para que eu as usasse quando chegasse aquelas visitas importantes como dizia minha madrinha.
Nunca fui tratado igual aos filhos e netos dela mas lembro que me dispensava carinho e atenção, mais que outros guris de lá e que acho que não tinham aquele “papel documento”, o que às vezes causava resingas dos demais da casa.
Eu gostava muito dela, sempre tratando com respeito e fazendo as lidas por ela determinadas e também nunca me aproveitei da sua bondade para abusar ou tirar proveito das ocasiões.
Um ano depois do meu registro, fui batizado quando da missa do padroeiro do lugar que era São Sebastião, daí meu nome. Não houve nada de especial, somente lembro de uma vela branca comprida com um tope de fita que permaneceu acesa na minha mão durante a fala do padre Bento.
Chegou o dia que ela me mandou para a escola, pois sempre dizia que queria me ver trabalhando na cidade, bem vestido assim como aqueles que nas casas de comércio a ela atendiam.
Três anos haviam se passado e minha madrinha adoeceu gravemente não tendo esperança de cura e veio a falecer, deixando um grande vazio na estância e maior ainda, dentro de mim.
Seu Juca Batista também não durou muito. A filha mais velha dele não quis saber de voltar para a estância. Ficou na capital onde o marido, bem sucedido, tinha um hospital. O outro filho, o do meio, estudava na Europa e já traçava outros planos. Restou então o caçula, um pouco mais velho que eu e que muitas vezes se enciumou pela atenção que minha madrinha a mim dirigia.
Sem o apoio dos mais velhos, deixei a escola e foi então solicitada minha presença junto as lidas do dia a dia, sem que pudesse cometer erros pois afinal, como dizia o patrãozinho eu era um “negro-branco”, palavras que eram usadas já pelo seu Juca, desde a época em que me lembro.
E assim foi passando o tempo que não deu tempo para mim. Passei lidando, não tive um trabalho para andar bem vestido, não tive tempo de arrumar uma namorada, casar, ter filhos.
Hoje com alguns fios de cabelos que restam, já tordilhos e com o papel do registro amarelado e furado pelas traças, levo a vida aqui por este galpão, onde ainda sinto razão de viver quando alguém se dispõe a ouvir meus causos.
segunda-feira, 30 de março de 2015
O MAIS AMIGO DOS AMIGOS
Patrão
Celestial buenacho,
Pai de toda a
humanidade,
me sinto bem à
vontade,
batendo
estribos Contigo,
se eu preciso
de abrigo,
quando fico
abichornado,
tenho Tu no
meu costado,
o mais Amigo
dos amigos.
Não Te vejo,
mas Te sinto,
em tudo aquilo
que faço,
e encontro nos
Teus braços,
a necessária
guarida,
para continuar
nesta vida,
como um
modesto peão,
pedindo o Teu
perdão,
quando
fraquejar na lida.
domingo, 15 de março de 2015
PUXÃO DE ORELHA
Tive que ir pra cidade
porque a coisa andava osca
porque a coisa andava osca
tava escassa a pegada
andava atirado às moscas
me conformando na canha
indo pra o lado do vício
e a conta se espichando
no caderno do bolicho
Cheguei lá de tardezita
procurando um conhecido
ele tinha se mudado
e eu fiquei meio perdido
me arrinconei num banco
na pracinha de brinquedos
mas se tivesse alguns pilas
me ia pro chinaredo
Passei a noite me espiando
sem poder pegar no sono
cedito vaguei nas ruas
qual um cachorro sem dono
cumprimentava as pessoas
não me davam atenção
e pela primeira vez na vida
que rezei uma oração
"Pai nosso que está no céu
bendito seja o Teu nome
Senhora Virgem Maria
tenha pena deste homem
Patrão Velho mande alguém
que venha em meu auxílio
pode ser o Jesus Cristo
que como eu é Teu filho"
Eu até me arrepio
porque o Pai do Céu me ouviu
daquele dia em diante
um bom serviço surgiu
cama, mesa e boa pilcha
ia me arribando aos poucos
dava pra pagar os bicos
e ainda sobrava uns trocos
Trabalho honestamente
tomei jeito e consciência
larguei do vício e da farra
vim visitar a querência
trouxe a china na garupa
que me tapa de carinho
a guaiaca recheada
e num petiço o piazinho
Tenho muito a agradecer
ao nosso Patrão do Céu
elevo meu pensamento
bem arriba do chapéu
nada é acaso na vida
tudo tem razão de ser
se Ele puxou minha orelha
foi só pra eu entender
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
O "TITI-TÁTI"
E as horas eram arrastadas pelos
ponteiros daquele relógio antigo que morava num prego na parede da sala, cujo
pêndulo dançava no ritmo do tique-taque.
E as crianças de outrora, com os olhos de “bulita” admiravam aquele pêndulo e acompanhavam com a cabeça para um lado e para o outro no mesmo compasso e o chamavam de “titi-táti”. Diziam a elas que o relógio tinha alma e ela é que embalava o pêndulo, daí então arregalavam ainda mais os olhos.
Durante a noite, mesmo solito na sala, o velho relógio continuava seu tranco e era quando mais se ouvia, de hora em hora, seu gongar quebrando o silêncio e as crianças de outrora sentiam medo de passar por lá.
Os números, que na verdade eram letras (I-X-V) demarcando as horas, eram magras e elegantes. Usavam um traje preto impecável que as fazia sobressair, contrastando com o branco do mostrador. Os ponteiros dourados também eram magros e elegantes. O menor era mais preguiçoso.
Eram companheiros do “titi-táti” um espelho emoldurado com madeira envernizada da mesma espécie da dele, um retrato oval e um porta-chapéus, também de madeira pintado de preto.
Desde que foi pendurado lá, saiu somente uma vez para ir ao médico, mas o mal teve cura e logo voltou para a harmonia da sala e alegria dos companheiros de parede.
E as salas de hoje não ouvem mais as gongadas. A nova geração do “titi-táti” é silenciosa e as crianças de agora, não param para balançar a cabeça à sua frente e sim curvando a espinha a teclá-lo freneticamente, pouco se importando se marca ou não as horas.
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