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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

POIS É, TALVEZ, QUEM SABE?

Foto de Betania Marques de Moraes
Morava nas taquareiras,
peleando com a própria sina,
porque um dia sua china,
lhe traiu com um conhecido.
Viveu o resto da vida,
encharcado na bebida,
o descornado marido.

Apesar de ser purgante,
era um pobre vivente
e filho de boa gente,
como o povo dizia.
Mas será que a traição,
não foi a principal razão,
pela qual ele bebia?

Pois é, talvez, quem sabe?
Ninguém se importou com isto,
só enxergaram o vício,
naquele negro coitado.
Nunca lhe olharam por dentro,
pra descobrir o sentimento,
de viver embriagado.

Um dia o patrão do céu,
mandou que ele subisse
e com certeza alguém disse,
descansou o pobre negro,
que viveu sem ter um teto,
sem amor e sem afeto
e carente de um aconchego.

Seu rancho foi a ramada,
no meio das taquareiras.
Viveu a sua maneira,
no acampamento simplório,
onde apagaram as brasas,
daí levado pra casa,
pena que foi pra o velório!

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

SEM DÚVIDAS

Como não acreditar,
ao contemplarmos este céu azul,
que Deus é gaúcho
e foi Piá aqui no sul?

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

NA PAZ DE UM RANCHO


Apesar dos trancos que a vida lhe deu, traz um semblante tranquilo, olhar humilde e um sorriso sincero no rosto negro que contrasta com a moldura branca da barba e dos cabelos encarapinhados.

Quando veio ao mundo, já nasceu livre, apesar de sua mãe ter dado à luz nos aposentos de uma antiga senzala.

Não sabe sua idade certa, mas isto não é culpa sua e sim de quem extraviou os papéis, como diz.

Muitas pipas de água, muitas lavouras carpidas, muita lenha cortada, muitas idas e vindas pela vizinhança, muitos passeios com a sinhá e a sinházinha, quando atrelava o tordilho gordo e marchador na aranha verde com o rodado branco. Lembra que se entretia com as sombras das sombrinhas das duas que se projetavam no chão a rodopiar, ao longo do trajeto.

É dono de uma memória invejável, muita lucidez e ainda uma vitalidade física, talvez em consequência do bom apetite que dispõe.

Tonico, como era chamado no tempo de guri, agora transformara-se naquele ancião experiente, simpático, querido e carinhosamente tratado por tio Nico.
        
Sua paixão de adolescente ainda mora com ele, no mesmo rancho que acolheu aquele casal cheio de amor e ali criaram e educaram meia dúzia de filhos.

Como tantos, por este mundo de Deus, estão aposentados e moram só os dois, tendo como companhia, um cusco que late ferozmente quando algum estranho chega, ou amistoso abanando o rabo para os conhecidos e um galo peito duplo, que além de anunciar a madrugada, cacareja junto às galinhas na hora que alguma põe.

Dona Dita, sua eterna namorada, apesar de um pequeno problema no joelho, o que lhe faz portar um bastão, cultiva uma hortinha cercada de taquaras lascadas, cerca esta feita e frequentemente reparada pelo marido. Ali, misturam-se verduras, chás, pimenta, arruda, enfim, um rodízio conforme a época de cada planta.

Tio Nico também não fica pra trás, tem uma lavourinha no costado da horta que dá gosto de ver. A enxada ainda corcoveia no vai e vem da capina, não dando alce à sujeira, naquelas mãos que muito tiraram o sustento da terra para a família.

A energia elétrica ainda não chegou por lá, porém um “radinho de pilha” ressonga diariamente, principalmente à tardinha, quando gerveia com sua prenda em frente ao rancho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

NA ESPERA

Domingo “matiei” solito,
segunda-feira também.
Terça só uns três mates,
na quarta não tinha ninguém.
Quinta dois e mais dois,
sexta chegou a prenda:
- O resto conto depois !


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

BATENDO CAROÇO

Foto de Ariomar F. Martins (o atleta é o meu pai, seu Antão com 95 anos de idade).

Um balim de referência,
quatro rigas e quatro lisas,
campo fora sem divisas
ou num plano do terreiro,
de mano ou de companheiro
velhos tronqueiras e moços,
vão batendo caroço
por canha ou por dinheiro.

A bocha vale dois pontos
e a partida vinte e quatro.
Numa tábua com buracos
que tem a numeração,
é feita a marcação
pelo próprio bolicheiro,
naquele placar campeiro
que todos prestam atenção.

Assim é o jogo de bocha
no reduto de um bolicho.
Por dinheiro é no capricho
e mais atenção no jogo,
que se inflama e pega fogo
no decorrer da partida,
por vezes as bochas medidas
pra se evitar algum logro.

Se o trato é por um trago,
o jogo é mais folgado,
vai deslanchando flauteado
com alarido e torcida.
A bocha é curta, é comprida
e patacoadas da hora
e muitos que estão de fora
dão piruadas na partida.

Bate a do ponto pra seis
diz um parceiro pra outro.
Deixa pra mim que sou canhoto,
responde quase num berro,
eu atiro como quero,
pacholeia bem afoito,
vou trocar ela pra oito
porque pra o fora não erro.

A bocha fica no ninho
e a partida está ganha,
vem logo o liso de canha
que bebem se divertindo.
Quem ganha flauteia rindo
em meio ao alvoroço,
é assim que batem caroço
pelos bolichos aos domingos!


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

GENTE, OLHA O SINAL !

Foto de Giancarlo M. de Moraes

A primavera no seu dia
chegou bem “enferruscada”
e pra banda da madrugada,
a chuva então se veio
e muita água caía,
mais do que era preciso
com ventania e granizo
num temporal muito feio.

Hoje se fala no El Niño
e em La Niña também,
a natureza porém,
está respondendo a agressão.
Tomamos outros caminhos,
talvez por míseros vinténs,
alguém sempre culpando alguém,
mas que diacho: e a razão?

Temo-nos por mais inteligentes,
de todo o reino animal,
então porque afinal
querer tirar o corpo fora?
Sejamos todos conscientes
e entendamos o sinal
que o Patrão Celestial
já “nos’tá” fazendo há horas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

SIÁ LAURINDA

Morreu a Siá Laurinda
sem saber qual sua idade
sem conhecer a cidade
sem ter filhos nem marido
com o coração repartido
entre o amor e a bondade

Ninguém sabia de onde
era sua procedência
mas conheciam sua ciência
através das benzeduras
dos chás e de suas curas
pela Divina Providência

Miles de partos atendeu
sem cobrar nenhum tostão
nem nunca deixou pagão
a quem por suas mãos viu a luz
e sempre em nome de Jesus
abençoava o cristão

(. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .)

Hoje as daninhas tomam conta
da farmácia do terreiro
seu consultório campeiro
só com a metade em pé
onde as curas pela fé
não quiseram ter herdeiro

Com certeza Siá Laurinda
descansa no céu agora
talvez relembrando a flora
que usou em sua medicina
e na Querência Divina
faz chá pra Nossa Senhora

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

... DAS HORAS


Tem horas que a gente vive
e tem horas que a gente sonha
tem horas que se tem orgulho
e tem horas que se tem vergonha

Tem horas que nada serve
e tem horas que nada presta
tem horas que nada falta
e tem horas que nada resta

Tem horas que a coisa é errada
e tem horas que a coisa é certa
tem horas que a coisa folga
e tem horas que a coisa aperta

Tem horas de alegria
e tem horas de amargura
tem horas que tudo é dor
e tem horas que vem a cura

Tem horas que tudo vem
e tem horas que tudo vai
porém em todas as horas
estamos nas mãos do Pai

domingo, 2 de agosto de 2015

DAS NOITES E TROPAS

Foto de Giancarlo M. de Moraes

Quantas noites mal dormidas
com a carcaça molhada
por corredores e estradas
tropeando aqui e ali
foram cavacos da lida
de uma infância sofrida
da qual herdou o guri

Noites de ponchos e pelegos
geada e fogo-de-chão
também noites de verão
de estrelas e lua cheia
noite escura e ronda braba
quando o cansaço desaba
e o sono vem e boleia

Longas foram as jornadas
com seu avô e o pai
e assim como tudo vai
foram-se também as prosas
e nas noites quase sem fim
passava o vento clarim
ecoando notas penosas

E hoje de barba branca
recordar é o que lhe resta
quando a saudade molesta
o que não cicatrizou
e no baú da lembrança
é onde guarda a herança
que de tropear lhe tocou

sábado, 25 de julho de 2015

TEMPO CABORTEIRO



Encosta os tições Juvêncio,
que a noite vai ser baguala,
só tenho meu velho pala,
um pelego e a badana
e pra não melar de novo,
vou ajeitar perto do fogo,
um arremedo de cama.

O dia foi tenebroso,
desde cedo meu parceiro,
este tempo caborteiro,
me guasqueou com seu açoite,
mas com o calor da chama,
neste improviso de cama,
vou pelear com o frio da noite.

Amanhã depois do mate,
eu me boto na estrada,
cedito quebrando a geada,
pra chegar no meu rincão,
então na noite brasina,
terei o calor da china,
sem ter que dormir no chão!

“Oiga” tempo caborteiro,
que congela até os ossos,
mas com fogo, mate e china,
dá o tempero que gosto!