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quarta-feira, 5 de abril de 2023

MEU NINHO

Meu rancho de fé

meu canto meu ninho 

entupido de carinho

do chão ao Santa-fé


Meu rancho plantado

no pé da coxilha

de tosca mobília

meu mundo encantado


Meu rancho do carreteiro

em panela de ferro

e do primeiro berro

de um piazito manheiro


Meu rancho conforto

das noites e dias

que nas horas vazias

mateio absorto


Meu rancho da velha cordeona

que alegra meu canto

e do acalanto

pra prendinha chorona


Meu rancho e abrigo

com fogo-de-chão

do aperto de mão

e do abraço no amigo


Meu rancho meu lar

sem trancas e tramelas

onde a Prenda da janela

espia eu chegar


Rancho que traz

passado e presente

divina vertente

de amor e de paz


Minha reverência

meu rancho meu ninho

humilde ranchinho

minha eterna querência

quarta-feira, 29 de março de 2023

... DAS MADRUGADAS

Como é bom acordar cedo

ouvindo o cantar dos galos

o relincho dos cavalos

e o canto da passarada

passar uma água no rosto

cevar um mate a meu gosto

com sabor de madrugada


Como é bom sentir o cheiro

das flores das laranjeiras

de apojar na mangueira

pra ter o leite nas casas

atiçar o fogo de chão

pra rescender no galpão

o cheiro do chibo nas brasas


Como é bom varrer o terreiro

levar pra o monturo o cisco

onde um lagarto arisco

se escapa da cachorrada

como é bom levantar cedo

no ritual do arremedo

de outras tantas madrugadas


segunda-feira, 27 de março de 2023

... DAS NOITES

As sombras se esconderam

dentro da noite escura

enquanto lá nas alturas

uma estrela cadente

se boleou rumo ao poente

e o taura "bombiando" o céu

rezou tirando o chapéu

fez um pedido bem crente


Lembrou do tempo de piá

que do escuro tinha medo

e tinha que guardar segredo

quando era feito um pedido

mas ele sem ter sentido

que santo não é brinquedo

revelava o segredo

e assim não era  atendido


Lá em riba outras estrelas

numa formação em cruz

orientam com sua luz

mesmo numa noite escura

aquele que se aventura

nas andanças pelo pago

com carência de afago

na esperança de cura


Contra a costa do mato

revoa um vaga-lume

e um suave perfume

vem de carona no vento

e mirando o firmamento

emponchado em suas lembranças

o taura bebe distâncias

num mouro ao tranco lento


quarta-feira, 15 de março de 2023

DESASSOSSEGADO

No silêncio das horas

quando o mate faz costado

sinto o peito apertado

por falta de um aconchego

junto do fogo percebo

uma visão que se forma

vem para mim e retorna

pra tirar o meu sossego


Meu cusco arrepia o pelo

rosna mas não se levanta

lá fora um galo canta

sem ser hora de cantar

ouço a cambona chiar

sem do tempo ter noção 

e na brasa de um tição

vejo alguém a me espiar


Levanto e abro a janela

vejo  as estrelas e a lua 

vejo a coxilha nua

quem sabe louca de frio

ouço do vento o assobio

entre o galpão e o arvoredo

levando nele o segredo

num galopar bem macio


Afasto bem os tições

recosto a cuia e cambona

e minha alma se arrincona

enquanto o coração bate

e na pelegama de um catre

campeio em busca do sono

pra num sonho ser o dono

de uma parceira pra o mate


domingo, 26 de fevereiro de 2023

CHEIO DE RAZÃO

Com dez anos de namoro

e mais uns cinco de noivado

começou ser pressionado

pela família da moça

eu peço que tu me ouças

disse o velho num alvoroço

vamos resolver o caroço

ou hoje "quebremo" a louça


Não gostou mas ficou quieto

e mais tarde deu uma resposta

se o senhor gosta ou não gosta

pouco importa para mim

e pra isso ter um fim

e parar com lero-lero

eu vou dizer como quero

e terá que ser assim


De hoje em diante sua filha

terá outro tratamento

porque pra mim casamento

não é um assunto sério

tenho fama de gaudério

assim na boca do povo

sujeito a casar de novo

ou me envolver em adultério


Com o olho dentro do olho

brabo como mamangava

sustentou sua palavra

mas não partiu pra violência

debochou numa reverência

tocando a aba do chapéu

e disse olhando pra o céu

que família sem paciência


terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

TAURA

Embora que a idade lhe pese nos ombros

embora que a sorte alguns tombos lhe deu

o taura resiste domando a lida

nos anseios da vida 

do seu próprio eu


Embora que o tempo galope depressa

embora que o rancho a quincha vergou

o taura resiste e garante a pegada

na terra cansada 

que  há tempos herdou


Embora que os filhos se foram pra longe

embora no peito arroche a saudade

o taura resiste e não desanima

no amor da China 

a felicidade

terça-feira, 18 de outubro de 2022

PELA ESTRADA

O galope do meu mouro

ia no mesmo compasso

da milonga do assobio

e a madrugada tordilha

ansiosa esperava o sol

pra se ver livre do frio


Num tranquito pela estrada

três cuscos de batedores

e outro cusquinho lá atrás

a Dalva fraqueja o brilho

e mais um dia se achega

num horizonte de paz


Tiro o chapéu e agradeço 

também peço proteção

pra mim pros cuscos e o cavalo

o vento leva minha prece

e o dia também reza

pela garganta de um galo


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

PEALANDO SAUDADE


Um piazito pachola
com estampa de campeiro
retouçava no terreiro
laço de embira na mão
montando um cabo de enxada
dava ordem pra cuscada
num rompante de patrão

Uma boina bem cravada
parecendo uma touca
um tirador de estopa
e uma espora de lata
pelego garra de velo
num dos pés meio chinelo
no outro uma "alpargata"

Num alarido corria
reboleando com destreza
com esperança e certeza
afinal era patrão
num pealo duas galinhas
mais outro o galo de rinha
e a meia espalda um leitão

Escaramuçando o "cavalo"
num socado galopito
buscou num tiro bonito
um frango "em riba" do poço
noutra volteada uma gata
juntando as quatro patas
foi apertando no pescoço

Aquele símbolo gaúcho
com um instinto campeiro
é um de tantos herdeiros
que traz isso por batismo
é como uma vacina
é uma semente que germina
perpetuando o gauchismo

Assim brincava o piazito
na sua estância fantasia
com ar de sabedoria
e entono de patrão
sem ambição e sem maldade
que hoje aqui na cidade
peala a saudade no coração

domingo, 12 de junho de 2022

O BOLICHO E A SAUDADE

Do rancho até o bolicho 

regulava légua e pico

onde eu sempre me encontrava

com os piás do  seu Chico


Depois das compras um recreio

um desafio de bodoque

um joguito de "bulita"

e nos petiços um galope


Carreira por rapadura

gasosa e até licor

e o dono do bolicho

era o fiel julgador


Sempre tinha um ganhador

carreira não empatava

pois se houvesse empate

o bolicheiro não lucrava


Uma peleia de cusco

que a gente mesmo atiçava

vinha logo a descompostura

que o bolicheiro nos dava


Um tiau e alçava a perna

uma "escramuçada" e um grito

os piás se engarupavam

e eu me ia solito


Volta e meia ainda retorno

"praquelas" bandas de lá

onde a tapera do bolicho 

guarda a saudade dos piás


sexta-feira, 20 de maio de 2022

SE DER TEMPO A GENTE LAÇA

 

Ta decidido parceiro
"bamo" fazer uso do arreio
e se "botemo" prum rodeio
pra lubrificar a goela
pra retouçar com as donzelas
e relaxar a carcaça
se der tempo a gente laça
isto só depende delas

Os pingos espumando o freio
e nós dois de cara alegre
porque a vida assim prossegue
com a graça do Nosso Deus
e tanto tu como eu
estenderemos os braços
para soltar os abraços
que a pandemia prendeu

E no final do domingo
sovado pelo farrancho
"peguemo" o rumo do rancho
se benzendo na cantina
segunda vem a rotina
da lida e compromissos
pra "botá" em dia o serviço
que o patrão determina

O fogo de chão refeito
e uns mates na madrugada
boia de sal requentada
na frigideira cascuda
"Deus ajuda quem madruga"
é um antigo ditado
e neste ritual abençoado
vida de peão nunca muda!