Páginas

Marcadores

segunda-feira, 29 de julho de 2019

TROTE DA ESPERANÇA



Foto própria


Um desacerto com o patrão
por lambança de outro peão
por muito pouco quase nada
deram apoio ao lambanceiro
e mandaram que o campeiro
pegasse logo a estrada

Meia dúzia de patacas
se ajeitaram na guaiaca
pagamento do patrão
saiu sem ter despedida
porém de cabeça erguida
com consciência e razão

Na calma da madrugada
sobre o lençol da geada
o quero-quero num grito
rasgou o silêncio do campo
e montado num pingo ao tranco
ia o vivente solito

Chapéu negro de aba larga
esporas cosquilhando a ilharga
enroscadito no pala
só se via o nó do lenço
um palheiro fumacento
e um fiambre recheando a mala

Já com horas de estrivo
cavalgava pensativo
deixando o rastro na estrada
desta vez ia solito
floreando um assobiozito
mesclado com as baforadas

Há algum tempo passado
por ali foi noticiado
que a Estância Santo Hilário
tava de porteira aberta
tinha pegada na certa
muita doma e bom salário

E pra lá tomou o rumo
pra seguir mantendo o prumo
de um peão que entende da lida
e sem chorar as pitangas
deixar de viver de changas
mudar de sorte e de vida

Com o sol já no horizonte
ao trote cruzou a ponte
do velho rio Camaquã
então vencida  a distância
deu Oh! de casa na estância
com esperança no amanhã

quarta-feira, 24 de julho de 2019

UNS E OUTROS

Foto própria

Uns reclamam da seca
outros reclamam da chuva
uns se queixam da lagarta
outros se queixam da saúva

Uns detestam o frio
outros detestam o calor
uns não cuidam da saúde
outros se queixam da dor

Uns tem nojo dos outros
outros tem nojo de uns
uns não gostam de muitos
muitos não gostam de alguns

Uns tem cara de bons
outros tem cara de maus
uns tem caras honestas
outros tem caras de pau

sexta-feira, 12 de julho de 2019

MINHA PÁTRIA SULINA

Foto de Paloma


Quando um laço corta o espaço
no entrevero de um rodeio
é o Rio Grande num floreio
se espichando qual baraço
e sai na força do braço
relembrando as campereadas
se abrindo numa armada
pra mais um tiro seguro
deste pago pelo duro
orgulho da gauchada

Laça a prenda laça o peão
gurizada e veteranos
todos dão mostra do pano
numa grande comunhão
na parceria de irmãos
cangados por um ideal
tendo no ponto cardeal
a mesma direção
a conduzir a tradição
de um Rio Grande bem bagual

Lenços brancos e colorados
e chapéus tapeados ao vento
és Tu Rio Grande pacholento
na tradição irmanado
e um coração agrandado
pulsiona o sangue farroupilha
pra seguir na mesma trilha
dos que nos antecederam
e que por Ti muitos morreram
peleando em Tuas coxilhas

Pra Ti minha Pátria Sulina
rendo mais uma homenagem
e não me falta coragem
pra dizer com esta rima
que a Providência Divina
no seu sábio catecismo
instituiu o Teu batismo
pra teres a identidade
Liberdade Igualdade Humanidade
bravura e gauchismo


segunda-feira, 24 de junho de 2019

SINA CAMPEIRA

Foto própria

Depois de acertar as contas
dos tantos anos de lida
a porteira se abriu
permitindo-lhe a partida

Nos olhos veio a poeira
numa triste  despedida
e é claro que um peão chora
se a alma parte sentida

Novos rumos pra seguir
e um incerto porvir
em sua sina campeira

Conta com a sorte nos tentos
e a confiança que São Bento
lhe abrirá nova porteira

segunda-feira, 17 de junho de 2019

M E D I T A Ç Ã O

Foto de Janaína Real de Moraes. 
Quando a vontade te deixar de lado
e o tédio te fizer revoltado
busques a fé com uma oração
quando a ânsia prender tua fala
e tua perna chamar a bengala
segures firme confiando na mão

Quando sentires o peso da idade
e a mala gorda de tanta saudade
não te enclausures e fiques paciente
quando a tristeza quiser teu olhar
e a fraqueza quiser teu andar
redobres a força e toques em frente

Quando o pensamento errar o caminho
e a solidão rondar o teu ninho
lembres Daquele que ama os filhos Seus
quando a alegria te trouxer a calma
leves a pureza pra dentro da alma
e agradeças as bênçãos e a força de Deus

segunda-feira, 3 de junho de 2019

NO SUL DO MEU MUNDO

Desenho no paint brusch do windows.

As folhas foram aos pouco
se despencando dos galhos
no galpão o pai-de-fogo
se renovou no borralho
é o sintoma do outono
e  prenúncio da invernia
deixando as noites compridas
pra que se encolham os dias

As nuvens de pala cinza
chegam gordas de água fria
e o Minuano entre as casas
notas geladas assobia
chega também o Campeiro
com seu sopro de arrepio
a criação se enrosca
tremendo e “grune” de frio

Nas várzeas um esbanjar d’água
nas coxilhas aragem fria
o sol vai dormir mais cedo
a lua se arrepia
e as estrelas ficam longe
dum inverno rigoroso
que o gado arrepia o pelo
e o campo branqueia o toso

E aqui no Sul do Meu Mundo
bem onde vem dormir o sol
a geada branqueia tudo
cobrindo com seu lençol
o taura porém resiste
seu pala aguenta o repuxo
pois pra viver nestas plagas
só mesmo sendo gaúcho

terça-feira, 28 de maio de 2019

... DA INFÂNCIA

Foto de Giancarlo M. de Moraes.
Quero lembrar do meu tempo,
quando morava lá fora,
mais que ansioso espero a hora,
para ouvir os quero-queros,
gritando lá no potreiro
e comer rapa de carreteiro,
feito em panela de ferro.

Quero brincar de mangueira,
na raiz daquele umbu,
onde este pequeno xiru,
se achava o rei do gado.
Quero quebrar a quietude,
“alvorotando” o açude,
num baita banho pelado!

Quero melar lixiguana,
abelha e camoatim.
Quero subir no cupim,
que foi parceiro discreto,
quando dava um alce a lida,
em aventuras proibidas,
num lugarzito secreto.

Quero pescar de caniço,
na sanguinha da divisa,
onde usei a camisa,
improvisando uma rede
e depois do arrastão,
juntei as conchas das mãos,
cheias “d‘água” pra minha sede.

Quero montar a cavalo,
naquele gateado meu,
pra mostar que ainda sou eu,
num tiro de quadra e meia,
depois voltar pra ramada,
com a tala bater espada,
arremedando uma peleia.

Quero fazer outras lidas,
que não dá pra ser agora,
mas quando chegar lá fora,
na querência onde nasci,
quero esquecer a cidade,
varrer pra longe a saudade
e de novo ser guri!

quinta-feira, 23 de maio de 2019

CAVALGADORES

Na pessoa deste parceiro JORGE LUIZ LARANJEIRA, homenageio a todos da lida. (Serra do Corvo Branco - SC).

                                                       
Se confundem com centauros
nas canhadas e nas coxilhas
pelas estradas e trilhas
no lombo do “nobre amigo”
levando sempre consigo
o amor pelo Rio Grande
pelos confins onde andem
nunca lhes negam abrigo

Camaradagem e parceria
sempre levam nos peçuelos
não tem de raça e nem pelo
todos são iguais na tropa
do chapéu até a bota
e do rabicho ao buçal
o homem e o animal
solícitos seguem a rota

Reverenciando heróis
ou fatos de nossa história
cumprem sua trajetória
semeando amizade
na campanha ou na cidade
são aclamados pelo povo
sendo velho ou sendo novo
tradição não tem idade

Que estes homens centauros
não desistam desta lida
isto faz parte da vida
é um vício bom e acalma
o seu ego bate palma
pois do Rio Grande és vassalo
levando ele a cavalo
com toda a força da alma

     

quarta-feira, 15 de maio de 2019

QUANDO A CUSCADA SE PEGA

http://www.tudodesenhos.com

Um brasino tigrado,
outro oveiro lanudo,
dois cachorros macanudos
igualando-se em tamanho.
O brasino num arregano
mostrava todos os dentes,
como quem diz sai da frente,
que sem demora te lanho.

O lanudo arrepiou o pelo
da cola até o pescoço,
atento roncando grosso,
pronto pra um bote certeiro.
O brasino traiçoeiro,
se abaixou num movimento,
dando um salto violento
que atirou longe o oveiro.

Saiu-se bem o lanudo,
pegando o outro na orelha,
a peleia ia parelha
daqueles dois combatentes,
se embolaram e de repente
se ergueram em duas patas,
quando coloreou a gravata
numa cruzada de dente.

O brasino pegou firme,
tremeu a perna o oveiro,
se espichando no terreiro
parecendo uma cobra,
mas numa brusca manobra
pegou o outro pra valer
e é aí que a gente vê,
como um cusco se desdobra.

Custaram separar os dois
porque nenhum se entregava,
um largava o outro pegava,
nenhum queria dar trégua.
Andavam lá na macega
na encarniçada peleia,
chomico! que coisa feia
quando a cuscada se pega.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

ESPIANDO O NATAL



Numa manhã de Natal
a criançada se ergueu cedo
ansiosas pelos “binquedos”
que o Papai “Nonel” deixou
a folia das crianças
contagiava a estância
mas teve um que não achou

Foi o filho do peão
que lá do seu rancho pobre
onde a escassez dos cobres
convive no dia a dia
da moldura da janela
espiava toda a trela
e a pompa da mordomia

Nunca se queixou por pobre
foi guri criado assim
e sua infância enfim
não foi ele que escolheu
e aquela mini figura
que espiava na moldura
adivinhem... era eu