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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

GENTE, OLHA O SINAL !

Foto de Giancarlo M. de Moraes

A primavera no seu dia
chegou bem “enferruscada”
e pra banda da madrugada,
a chuva então se veio
e muita água caía,
mais do que era preciso
com ventania e granizo
num temporal muito feio.

Hoje se fala no El Niño
e em La Niña também,
a natureza porém,
está respondendo a agressão.
Tomamos outros caminhos,
talvez por míseros vinténs,
alguém sempre culpando alguém,
mas que diacho: e a razão?

Temo-nos por mais inteligentes,
de todo o reino animal,
então porque afinal
querer tirar o corpo fora?
Sejamos todos conscientes
e entendamos o sinal
que o Patrão Celestial
já “nos’tá” fazendo há horas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

SIÁ LAURINDA

Morreu a Siá Laurinda
sem saber qual sua idade
sem conhecer a cidade
sem ter filhos nem marido
com o coração repartido
entre o amor e a bondade

Ninguém sabia de onde
era sua procedência
mas conheciam sua ciência
através das benzeduras
dos chás e de suas curas
pela Divina Providência

Miles de partos atendeu
sem cobrar nenhum tostão
nem nunca deixou pagão
a quem por suas mãos viu a luz
e sempre em nome de Jesus
abençoava o cristão

(. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .)

Hoje as daninhas tomam conta
da farmácia do terreiro
seu consultório campeiro
só com a metade em pé
onde as curas pela fé
não quiseram ter herdeiro

Com certeza Siá Laurinda
descansa no céu agora
talvez relembrando a flora
que usou em sua medicina
e na Querência Divina
faz chá pra Nossa Senhora

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

... DAS HORAS


Tem horas que a gente vive
e tem horas que a gente sonha
tem horas que se tem orgulho
e tem horas que se tem vergonha

Tem horas que nada serve
e tem horas que nada presta
tem horas que nada falta
e tem horas que nada resta

Tem horas que a coisa é errada
e tem horas que a coisa é certa
tem horas que a coisa folga
e tem horas que a coisa aperta

Tem horas de alegria
e tem horas de amargura
tem horas que tudo é dor
e tem horas que vem a cura

Tem horas que tudo vem
e tem horas que tudo vai
porém em todas as horas
estamos nas mãos do Pai

domingo, 2 de agosto de 2015

DAS NOITES E TROPAS

Foto de Giancarlo M. de Moraes

Quantas noites mal dormidas
com a carcaça molhada
por corredores e estradas
tropeando aqui e ali
foram cavacos da lida
de uma infância sofrida
da qual herdou o guri

Noites de ponchos e pelegos
geada e fogo-de-chão
também noites de verão
de estrelas e lua cheia
noite escura e ronda braba
quando o cansaço desaba
e o sono vem e boleia

Longas foram as jornadas
com seu avô e o pai
e assim como tudo vai
foram-se também as prosas
e nas noites quase sem fim
passava o vento clarim
ecoando notas penosas

E hoje de barba branca
recordar é o que lhe resta
quando a saudade molesta
o que não cicatrizou
e no baú da lembrança
é onde guarda a herança
que de tropear lhe tocou

sábado, 25 de julho de 2015

TEMPO CABORTEIRO



Encosta os tições Juvêncio,
que a noite vai ser baguala,
só tenho meu velho pala,
um pelego e a badana
e pra não melar de novo,
vou ajeitar perto do fogo,
um arremedo de cama.

O dia foi tenebroso,
desde cedo meu parceiro,
este tempo caborteiro,
me guasqueou com seu açoite,
mas com o calor da chama,
neste improviso de cama,
vou pelear com o frio da noite.

Amanhã depois do mate,
eu me boto na estrada,
cedito quebrando a geada,
pra chegar no meu rincão,
então na noite brasina,
terei o calor da china,
sem ter que dormir no chão!

“Oiga” tempo caborteiro,
que congela até os ossos,
mas com fogo, mate e china,
dá o tempero que gosto!

domingo, 12 de julho de 2015

FOI-SE COM O TEMPO




Passaram carretas e mais carretas na estrada. Nas casas moraram pessoas e mais pessoas.

Na estrada cada carreteiro com seu destino e nas casas cada pessoa com sua história.

E na carga das carretas iam se ajeitando as quitandas e nas casas as moças espiavam pela janela os carreteiros. Por baixo das carretas, os cuscos tranqueavam assoleados e os das casas, saiam para a estrada pra pelear.

E os bois na estrada, cutucados pela picana de taquara, puxavam preguiçosamente a carreta e nas casas, os bois ruminavam no potreiro, à sombra das taquareiras. 

Na estrada, a fumaça dos palheiros serpenteava em direção ao céu e nas casas, a fumaça dos fogões esgueirava-se por entre o galpão e o arvoredo.

Na estrada, a voz cantada do carreteiro chamava a junta da ponta e nas casas o canto de uma mãe fazia a cria dormir.

E na estrada, hoje, a carreta não passa mais e nas casas as moças não espiam mais na janela e os cuscos latem por trás da tela.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CHIMARREANDO COMIGO

Nas horas que chimarreio,
na companhia de mim,
o pensamento faz um passeio,
naqueles tempos que vim.

Minh’alma rejuvenesce,
com a seiva verde espumosa.
É um ritual tal uma prece,
do meu eu comigo em prosa.

A bomba me traz a essência,
enquanto percorro a consciência,
mesmo estando alheio.

E ao secar a cambona,
a cuia ronca chorona,
findando assim o passeio!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O PEÃO E A LIDA


Foto de Carlos Alberto Tatsch




A lida de um peão solteiro
pelas fazendas do pago
é dura mas sempre há tempo
pra uma volteada e um trago
procurar um rabo de saia
na hora de um afago
prosear com os parceiros
carrerear os parelheiros
espairecendo os encargos

Tirar leite na mangueira
quebrar queixo de aporreado
se perder coxilha afora
no feitio de um alambrado
lavrar terra sem trator
com boi zebu aluado
dar boia pra criação
prestar contas pro patrão
sobre a situação do gado

Carnear e curtir o couro
estaqueado com taquara
aproveitar o tempo bom
prender fogo numa coivara
ir na venda pra Patroa
isto não é coisa rara
e quando recebe os pilas
dar uma volta na vila
pois quem ta vivo não para

Cortar lenha de machado
tirar palanque no mato
nos dias que está chovendo
lidar nas cordas com tato
pra refazer os estragos
da lida e dente de rato
também reunir o rebanho
naqueles dias do banho
pra controlar os carrapatos

E para a banda da noite
busca o abrigo do galpão
pra dar um jeito na boia
e sorver um chimarrão
depois se espichar num catre
onde vem recordação
da prenda lá do povoado
e o namoro alinhavado
na borda do coração