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domingo, 7 de junho de 2020

NÃO BASTA SER BUENO

Foto de Carlos Alberto Tatsch
Melena ruiva e barbudo,
mas bueno de serviço,
muito zelo e capricho
em tudo o que fazia.
Sempre no clarear do dia
era o primeiro que pulava,
chimarrão e café tomava
e num trotezito saía.

Moço de pouca conversa,
porém honesto e franco
e numa lida de campo,
desdobrava-se bonito,
curava uma rês solito
num rosilho cinchador,
tendo o pai por professor,
deu mui bueno o rapazito.

Manejava uma tesoura
com manhas de tosador
e cismas de domador
no lombo de um aporreado.
Montava por qualquer lado,
trançava com perfeição,
e na volta de um fogão
dava conta do recado.

Trabalhava na fazenda
já fazia algum tempo.
Tudo ia a contento,
não fosse o coração,
envolver-se numa paixão,
que apesar de proibida,
também era correspondida
pela filha do patrão.

O rapaz na sua franqueza,
sentia que estava errado
e andava abichornado
com aquela situação,
pra ele era uma traição,
com quem lhe dera confiança,
já não era mais criança
e foi falar ao patrão.

O patrão lhe recebeu
estando a patroa junto,
quando souberam do assunto
revoltaram-se na hora.
Botaram-lhe porta à fora,
sem pagar nenhum direito
e com um aperto no peito,
sem o amor foi embora.

Seria forte o motivo
para aquela decisão,
largar assim o peão
sem antes falar com a filha?
Ao rapaz boa família,
pelo menos um adeus!
Terá o perdão de Deus,
quem despreza e humilha?

sexta-feira, 5 de junho de 2020

PELEIA DE PENAS




Xomico que coisa feia
quando estourou a peleia
da Finoca com a Maruca
as duas do mesmo porte
disputavam vida e morte
numa batalha maluca

A poeira levantava
Finoca firme atacava
e Maruca caindo fora
asa perna e pescoço
e a plateia num alvoroço
tentando saltar pra fora

Num voo rápido e certeiro
qual um gavião tarimbeiro
a Maruca foi por cima
a Finoca num rasante
se livrou no mesmo instante
pois tinha cruza com fina

Eu pitando apreciava
quando uma ou outra pegava
na encarniçada rinha
e quando findou o palheiro
entrei no meu galinheiro
e separei as galinhas

Saudade da velha querência
lembranças da adolescência
que me chegam num cochicho
fui assim desde guri
e até depois que cresci
sempre dou nome aos bichos



quarta-feira, 3 de junho de 2020

SEDE DE MATE



Vinha com léguas de estrada
no lombo da minha tordilha
quando avistei lá na coxilha
as grimpas de um catavento
pra quem andava sedento
e louco por um chimarrão
ao ver o rancho meu irmão
senti um calor por dentro

Dei um cutuco na égua
me ajeitando no basto
mudou até o compasso
do coração no meu peito
eu sempre chego com jeito
nos ranchos deste meu pago
onde me vem um amargo
com erva buena e bem feito

Dei oh de casa! Da estrada
e ouvi um chegue pra diante
boleei a perna e num instante
apareceu um paisano
dizendo buenas hermano
te aprochega para um mate
pronunciado num sotaque
brasileiro/castelhano

Dei água para a tordilha
depois segui a jornada
bater casco nas estradas
esta é a minha identidade
mas quando aperta a vontade
dum mate pra matar a sede
sempre tem quatro paredes
nos dando hospitalidade

Assim vou passando os anos
assim vou levando a vida
faz parte da minha lida
chimarrear em algum momento
sou calmo não sou briguento
sou da paz reprovo a guerra
e que Deus me guie aqui na Terra
até findar o meu tempo

sábado, 30 de maio de 2020

MUDANÇA




Dava pena ver a carreta
até as goelas carregada
se achatando pela estrada
carregando a mudança
o motivo foi lambança
mexericos de vizinhas
por incomodação de galinhas
e rusguinhas de criança

Ia tudo misturado
os trastes os piás e a china
com um pano grande por cima
porque o sol tirintava
o mais pequeno mamava
sugando bem uma teta
na lentidão a carreta
no seu rangido chorava

O pobre peão cabisbaixo
caminhava no costado
pensativo abichornado
se viu na estrada no “mas”
acenou pra o capataz
lá na cancela escorado
e o cusquinho assoleado
parou e olhou pra trás

Foi triste deixar a morada
doía o coração
naquele naco de chão
ficava parte da vida
foi dolorosa a partida
mas necessário partir
e o sem saber pra onde ir
tornava a estrada comprida

TRANÇAS DO TEMPO




Seguiu o rastro do pai
no ofício de guasqueiro
trançava todo um apero
da cabeçada ao rabicho
trançar pra ele era um vício
sabia escolher um couro
de apelido "Mão de Ouro"
pela perfeição e capricho

Seu nome poucos sabiam
mas por muitos conhecido
foi longe seu apelido
nesta Pátria Riograndina
e no Uruguai e na Argentina
suas tranças tiveram fama
e nas encilhas castelhanas
destacou-se a obra prima

Homem simples como tantos
alma humilde alma santa
uma legenda da pampa
de se tirar o chapéu
com certeza lá no céu
numa divina fazenda
um santo faça a encomenda
pra que lhe trance um sovéu

sexta-feira, 29 de maio de 2020

MINHA PRECE



Patrão bueno das alturas
escuta agora este peão
que de joelhos no chão
com muita fé agradece
falando Contigo em prece
e satisfeito da vida
por ter dois guris parceiros
uma patroa querida
e netos “flor de especial”
pra continuar nossa lida
deixando também nesta prece
as duas noras incluídas.

Pela saúde que temos
por tudo que nos concedes
sei que dás e nada pedes
deixando-nos à vontade
agradeço de verdade
Pai Eterno Criador
por perdoar nossas ofensas
e de ser nosso protetor.

Tua bondade infinita
permite nossa existência
sempre nos dando consciência
pra seguir no rumo certo
estando sempre por perto
iluminando o caminho
e peço que nos guarde um dia
aí no céu um cantinho.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

SUSTO



Num estalo foi-se a canga
bem no topo da subida
a carreta ia entupida
pura lenha de angico
o Campeão e o Cabrito
chegaram ficar de joelho
depois pegaram parelho
quando lhes prendi o grito

Calcei as rodas com um toco
e soltei a tiradeira
enrodilhei a regeira
no canzil do Campeão
o cabeçalho no chão
pra não empinar a carreta
a coisa ia ser preta
se não firmassem o garrão

Tirei os bois da carreta
e fiz o sinal da cruz
agradeci a Jesus
com o meu chapéu na mão
sempre faço uma oração
quando saio pro serviço
e com certeza foi isto
que nos deu a proteção

Quase se deu um acidente
foi só um pequeno susto
correu pra longe o meu cusco
abandonando a estrada
graças a Deus não foi nada
vou levar a carga embora
porque no inverno aqui fora
sem lenha a coisa é braba

terça-feira, 26 de maio de 2020

NO GALPÃO





Acordou mas continuou deitado, apenas esperando o cantar do galo pra pular da cama. Uma boa espreguiçada, um longo bocejo e saltou.

Enxaguou a boca, um tapa d’água no rosto, uma ajeitada na melena e se foi pro galpão. Prepara o fogo, o mate, puxa o banco e enquanto a água aquenta, fecha um palheiro. A noite foi fria. Na calma da madrugada, ainda com o clarão da lua, dava pra ver a “tordilha” que vitrificava o campo.

A água já está pronta. Em uma das mãos a cuia, a outra que se apóia no joelho, ora sai pra alçar a cambona e encher o mate, ora pra levar o palheiro a uma tragada. O galo canta de novo, trazendo o pensamento do xiru de volta. Como vamos longe nestas horas...

O clarão do fogo faz as sombras dançarem pelo chão e pelas paredes. No santa-fé da quincha, pendentes de picumã também participam da dança, esta provocada pelo ventito que vem das frestas trazendo a aragem da geada.

O mate continua, o palheiro fumega, a cambona é enchida mais uma vez. 

O calor do fogo e do mate aquece o corpo e a alma, enquanto negócios, compromissos, cambichos, parceiros que já partiram, são relembrados.

Um estalo no fogo chuvisca o galpão de faíscas. Talvez fosse um daqueles parceiros que pediu permissão ao Patrão do Céu pra dar um volteio e ao se chegar pro mate enroscou a espora no tição. Quem sabe!?

O xiru tem quase certeza de que há pouco ouviu um Ôh! de casa. Estranhou porque a cachorrada não deu sinal.
Levantou-se, fez o sinal da cruz e partiu pra lida.


quarta-feira, 20 de maio de 2020

AGUACEIRO

Foto de Eron Olivera da Silveira




Bateu água a noite inteira,
porém não foi temporal,
a várzea virou um espelho
e “remangado” até o joelho,
repontei “ozanimal”.

O aguaceiro da chuva,
escabelou o capinzal,
e branqueiam os guardanapos,
da tecelagem dos sapos,
da noite matrimonial.

Ainda uma chuvita mansa,
tamborilava o chapéu
e longe via-se um filete,
das aves que vinham pra o banquete,
se despencando do céu.

As nuvens pálidas e ralas,
já com o “ubre” vazio,
seguem destino com o vento,
que cansado tranqueia lento,
fraquejando o assobio.



SOBRE O "RINGIDO" DO BASTO

Foto de Carlos Alberto Tatsch



Como é bom encilhar o pingo
e sair sem rumo certo
sobre o "ringido" do basto
ir assobiando e sorrindo
cantando de peito aberto
marcando o pasto com o rasto

Como é bom ver o horizonte
ouvindo acordes do vento
de “riba” dos meus arreios
do quero-quero o afronte
e as rédeas do pensamento
guiando sonhos e anseios