Sai muita cobra e lagarto
num bate boca de china
faísca na gasolina
e chispa de busca-pé
é bem coisa de "muié"
numa peleia feminina
o manotear nas quilinas
bunda de fora e banzé
Um palavreado seleto
em forma de ladainha
inflama mais ainda a rinha
e os podres vem para fora
a mais nova sempre chora
com a explanação do currículo
expoente do ridículo
que a cada "elogio" piora
E assim segue o espetáculo
no picadeiro da rua
uma pelada e outra nua
olho roxo escabeladas
com mordidas e unhadas
falta de ar e cansaço
até ganharem o "abraço"
da Patrulha da Brigada
sexta-feira, 18 de junho de 2021
FILÓSOFAS DA VIDA FÁCIL
METIDO DE PATO A GANSO
Me entreverei de carancho
num surungo certa feita
e por causa da desfeita
vinda do dono do rancho
já tumultuei o farrancho
e engrossou a peleia
meu sangue ferveu nas veias
como um rio na enchente
e amacotei o vivente
com um tapão na "oreia"
Se veio a cupinchaiada
como alcateia de lobo
e pensando não ser bobo
peguei o rumo da estrada
mesmo assim uma paulada
me fez dano na paleta
rodopiei numa piruleta
com um cutucão no pescoço
dum nagão de berro grosso
já com a agulha na espoleta
Levei muquete e sopapo
da pinha ao fim da espinha
sentindo perder a rinha
mas botando fé no taco
e por baixo do casaco
me cocei pra fazer medo
não deu certo o enredo
apesar do meu esforço
quando veio mais reforço
chegando o chinaredo
Eu levantava e caía
caía e me levantava
senti que a coisa piorava
mi'adaga foi-se à la cria
meio tonto mas ouvia
hoje a pau eu te desmancho
me meter de pato a ganso
não foi um bom resultado
e se eu não for convidado
nunca mais vou de carancho
UMA PROSA DO PEÃO COM O SANTO
Santo Antonio arruma um jeito
de desencalhar este xiru
só não vem com tribufu
e nem velha pelancuda
que não seja surda e muda
nem coroa da cidade
pode ser de meia idade
boa de dança e ancuda
Há muito tempo comicha
certas partes do meu corpo
tu sabes que não to morto
e ainda dou os meus galopes
posso abrir um envelope
mesmo que esteja lacrado
e carrego bem espichado
e com pedra meu bodoque
Entre a lida e a farra
até nem vi passar os anos
já to mais pra veterano
mas tenho fé e acredito
não sou rico nem bonito
e sei que vais ter trabalho
para quebrar o meu galho
pra que eu não fique solito
Vê aí meu velho Santo
se posso ser atendido
se não estou sendo atrevido
e também vê se mereço
e se eu não te aborreço
nem te tiro a paciência
é só mandar a penitência
que eu te mando o endereço
NAS TIRAS DE UM CATRE
E na garupa do tempo
seu tempo passou
por muitos pagos distantes andou
um dia aqui outro acolá
deixando no tempo o piá
o velho chegou
Do tempo das changas
a lembrança nos calos
dos cabos e pialos
e a sova das lidas
nos olhos neblina
ao lembrar da china
pedaço da vida
A mala estufada
de muita experiência
caráter consciência
que muitos não tem
uns míseros cobres
na espera que sobre
o afago de alguém
De melena tordilha
e barba de geada
e a poeira da estrada
habitando o chapéu
nas tiras de um catre
aguarda o resgate
dos pagos do céu
quinta-feira, 3 de junho de 2021
NO SOPRO SUAVE DO VENTO
Depois
da lida me ajeito
pra
um chimarrão e um palheiro
fico
bombiando no terreiro
o
retoço da criação
e
a sombra torta do moirão
faz
me lembrar uma serpente
e
o Astro Rei no poente
ainda
lambe o galpão
Conto
causos pra mim mesmo
que
ouvi ou que invento
vou
longe nos pensamentos
que
até me perco nas horas
parece
que vai embora
minh’alma
num voo lento
no
sopro suave do vento
que
só existe aqui fora
No
último ronco do mate
e
o pito já pitado
levanto
meio de lado
e
vou ajeitando a carcaça
enquanto
o tempo esvoaça
e
um tico-tico canta
agradeço
a minha Santa
por
mais um dia de Graças
ÂNSIA DE BAILE
Ansioso
espero o sábado
pra
ir pro saracoteio
e
pra ver se me enleio
nas
tranças de uma chinoca
pois
o meu rádio provoca
e
eu carrego a bateria
quando
no programa anuncia
Baitaca
e o Fundo da Grota
Me
pego com a vassoura
e
saio espalhando o pé
vai poeira pro santafé
com a batida do taco
o suor do meu sovaco
escorre pela costela
e o cabelo da magrela
vai se desmanchando em
fiapo
Um passeio pelo galpão
pra firmar a andadura
e golpear aquela pura
que busquei lá no “lambique”
pra sábado manter o pique
matando minha coceira
entreverado na poeira
dando alce ao apetite
Vem o sábado com sala
cheia
copa farta e bom gaiteiro
deixa o vivente faceiro
que nem pinto na “quirela”
a lua vem na janela
espiar o “burburim”
talvez pra encontrar em
mim
o par pra dançar com ela
Como a noite fica curta
no vai e vem de um surungo
parece que até o mundo
arrodeia mais ligeiro
na fumaça vem o cheiro
da querosene no fim
mas aquela ânsia em mim
não termina por inteiro
Já pensando noutra volta
madrugada sigo o rumo
um dia sei que me aprumo
juntando os trapos com
alguém
morar longe e sem ninguém
não há cristão que aguente
porque solito um vivente
nem a sorte lhe faz bem
RECUERDOS E SAUDADE
Cedito ia pra escola
de calça curta e tamancos
atravessando os campos
ainda brancos de geada
com as orelhas geladas
o nariz roxo de frio
e floreando um assobio
com notas desafinadas
Um ventito sorrateiro
chamuscava minhas canelas
e numa prosa com elas
aligeirava os passos
abrindo mais o compasso
sobre a pinguela da sanga
e limpava o nariz com a
manga
na parte inferior do braço
Me juntava com outro piá
lá na casa do vizinho
magricela e mulatinho
meu amigo de verdade
estes recuerdos e saudade
brotam no meu pensamento
no conforto d’um
apartamento
no tumulto da cidade
E o mulatinho magricela
vive tranquilo por lá
com a mesma alma do piá
que me esperava na estrada
da escola não sobrou nada
além do aprendizado
do amigo e mano adotado
e as cartas da namorada
domingo, 6 de dezembro de 2020
DAS VOLTEADAS
Mais ou menos a meia tarde
tomei um banho de sanga
e volteei o baio no campo
pois eu andava desinquieto
me ortigava a carcaça
como se fosse sarampo
De pilcha nova e cheiroso
saí batendo estrivo
qual um valete de ouro
na guaiaca uma ponchada
farejando um fandango
pra me ajeitar num namoro
Meu baio trocando orelhas
troteava atravessado
pachola que nem o dono
com a fumaça do palheiro
voavam meus devaneios
sob um luar de outono
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
VAZA PERDIDA
Foi debaixo do mau
tempo
que o maula se viu malito
pois peleava solito
já meio na água benta
porém bem de ferramenta
contrabando da Argentina
uma adaga de ponta fina
juntava beiço com venta
Cortava pelos dois lados
dois centímetros de largura
cinquenta de envergadura
do S até a ponta
a qual recebeu em conta
por uma de tantas lidas
sempre à mão mas escondida
pra o caso de alguma afronta
Era ligeirito o maula
magrela alto e melenudo
empafiado e topetudo
metia em tudo a colher
que nem flor de mal-me-quer
mudando a cor da coxilha
debochava numa encilha
se fresquiando pras mulher
Num baio Quarto de Milha
com cruza de Bororó
fazia forrobodó
quando tinha carreirada
chapéu de aba quebrada
e fumaceando um palheiro
passeava o parelheiro
dando sessenta por nada
Dava um dente por encrenca
se valendo da destreza
gostava de virar a mesa
quando a sorte não lhe vinha
e nos tambores de rinha
também fazia lambança
tendo certeza e confiança
no recheio da bainha
Era assim a diversão
do magrela melenudo
que se metia em tudo
e que um dia se deu mal
chegou bancando o bagual
como de sempre fizera
e topou com outro cuera
castelhano por sinal
Meia dúzia de ofensas
e olhares de cara feia
fedeu logo à peleia
entre dois da mesma linha
nenhum tirava farinha
mas num golpe bem cuiudo
vidrou os olhos o melenudo
com um balaço na pinha
Diz um velho ditado
que de tanto ir ao ninho
a raposa deixa o focinho
por se achar esperta na lida
e numa vaza perdida
um maula muito confiante
querendo levar tudo por diante
deixa pra trás sua vida





