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sábado, 5 de fevereiro de 2022

PRA REVIVER MEU VIVER

Então me ia pra fora

mesmo nas férias de julho

onde até hoje mergulho

na sanguinha que outrora

eu me perdia na hora

"garimpando" lambaris

era um aqui outro ali

um lá e outro acolá

por vezes até um jundiá

surpreendia este guri


Nunca esquecerei a querência

onde passei a infância

e por maior a distância

não me fugirá da consciência

aquela mais pura essência

que compõe este meu ser

e no peito vem me roer

todo tempo e toda a hora

me reportando lá pra fora

pra reviver meu viver

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

ASSIM QUE DER

Há dias venho com ânsia,

de abrir o baú do tempo,

pra reencontrar minha infância,

que está guardada lá dentro.

 

Vou revirar com cuidado,

pra que nada se estrague,

pois uma volta ao passado,

não há dinheiro que pague.

 

O tempo me anda escasso,

mas assim que der eu faço,

minha viagem ilusória.

 

Tenho certeza e garanto,

que encontrarei lá num canto,

o livro com minha história!


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O ONTEM DA VIDA



Me veio assim de repente

um verso repontando outro

veio outro e mais outro

como elos de corrente

e lá da grota da mente

trouxeram  acolheradas

lembranças enferrujadas

do baú deste vivente


Fui falquejando na manha

cada linha do poema

dentro daquele tema

de um guri da campanha

autor de muitas façanhas

que às vezes se dava mal

com um chamusco de sal

ou pó de café com banha


As palavras são as antigas

que continuam na moda

é assim que roda e roda

a roda que é corrida

e aqueles que são da lida

se encontrarão entre as rimas

sem ambição de obras primas

vivendo o ontem da vida


quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

NA ÂNSIA DO NATAL

Naquela noite o sono
gavionou antes vir
e o piá querendo dormir
desinquieto se batia
pela fresta espiava o dia
que também se demorava
e o Natal não chegava
enquanto o sono fugia

O tal de Papai Noel
só vinha uma vez por ano
pra ele era um palaciano
do império no polo norte
um velhote gordo e forte
que causava certo medo
mas no saco de brinquedos
vinha alegria e boa sorte

Às vezes até por caduco
ou quem sabe atucanado
deixa algum rancho de lado
no fundão de alguma estância
onde ainda exista criança 
de alma pura e sonhadora
que no Piá da manjedoura
tem Fé Amor e Esperança

Jesus nasceu para todos
desde o peão ao patrão
e no nosso coração
aquerenciou seu quartel
sendo-nos sempre fiel
com toda sua humildade
se entrevera na humanidade
feito o Papai Noel

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

FIEL BRASINO


 

Rengueando e assoleado
seguia o cusco comigo
fiel parceiro e amigo
valente o bravo soldado
desde pequeno ao meu lado
se acostumou com meu jeito
e eu também lhe respeito
lhe corrijo mas adulo
e cá comigo calculo
o bem que já temos feito

Tamanho não é documento
é um pouco mais que nanico
com ele me identifico
mais de cincoenta por cento
quando mateio e me sento
faz meu pé de travesseiro
se espicha de corpo inteiro
num cochilo relaxado
um olho aberto o outro fechado
vai patrulhando o terreiro

Atende por Sapucai
nome que eu mesmo botei
ele gostou eu bem sei
é só atiçar que vai
e comigo quando sai
mesmo rengo não se mixa
dum toruno à lagartixa
se desdobra e não faz feio
e sabe bem parar rodeio
quando num amor se enrabicha

Dorme embaixo da escada
que tem na porta da frente
dando sinal quando sente
até uma alma penada
tem a orelha acanhada
resultado de peleia
por isto também rengueia
por ter aceito um desafio
no entrevero do cio
numa noite de lua cheia

E vamos peleando brasino
cada um na sua lida
com esperança que a vida
não nos deixe teatino
pois se Deus quis que o destino
nos juntasse meu parceiro
no nosso jeitão campeiro
dando conta do recado
não te faças de rogado
e venhas pra o travesseiro


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

REFLEXÃO

 


Tem que saber fazer melhor, para poder criticar.


Tem que saber melhor o que quer antes de decidir.

Tem que se ter fé para melhor rezar.

Tem que saber melhor agradecer, para depois pedir.


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

FIM DE LIDA



O dia perdeu o brilho,
naquela tarde de outono,
a noite chegou sem sono,
silenciosa e com cautela,
sobre a mesa quatro velas,
iluminaram o caixão,
onde o espírito do patrão,
lhes deixou de sentinelas.

Ficou um vazio na estância,
com a partida do patrão.
Sentido, o mais humilde peão,
os demais e o capataz.
A família se refaz,
na solidariedade de amigos
e na lápide do jazigo,
um epitáfio de paz.

Foi mui bueno o homem velho,
tinha um coração gigante,
tratava seus semelhantes
com carinho e com respeito,
pra tudo achava um jeito
sem cometer desagrado,
e lenço branco ou colorado,
davam-se bem no seu peito.

Quis o Patrão Celestial,
que ele fosse pra lá,
pois pelos pagos de cá,
sua missão fora cumprida,
rebenqueou a sua lida
pelos campos da existência,
repontando com consciência,
os afazeres da vida.

Com certeza hoje é uma estrela,
que se tornando cadente,
declina reluzente,
guiando a todos peões,
ou então pelos galpões,
ouça as prosas e faça rondas,
ou talvez seja milongas
dedilhadas nos violões.

Na moldura de um retrato,
sorridente e bem pilchado,
sempre será relembrado,
o homem simples que viveu,
seu espírito não morreu,
só deixou de ser patrão,
para ser um novo peão,
ou o Capataz de Deus!

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O CANTO DO SABIÁ


Nas andanças de retorno

pra querência que amo tanto

ouvi do sabiá o canto

ecoando entre as pitangueiras

e a velha laranjeira

sentinela da tapera

sobrevivendo ao tempo

com ralas folhas ao vento

acenou pra primavera

 

Senti naquele momento

uma nostálgica emoção

e num ímpeto pedi perdão

pelos bodoques gaiolas e arapucas

e reconheci minha culpa

num exame consciencioso

pois foram coisas do piá

que ao caçar um sabiá

tornava-se um vitorioso

 

Rezei na velha tapera

onde caçou o piá

e no canto do sabiá

também ouvi uma oração

foi com certeza o perdão

que o próprio sabiá me deu

senti um alívio no peito

e o sabiá pelo jeito

ficou feliz como eu


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

INDO EMBORA A ENCHENTE

Foto de Eron Oliveira da Silveira


Pra banda de outras querências
as nuvens seguiram cheias
acumulando nas veias
o seu sangue natural
e o astro maioral
que há dias tava mesquinho
achou de novo o caminho
apesar do temporal

As águas foram baixando
indo embora a enchente
e o gado lentamente
desce pra várzea pastando
os quero-queros revoando
no tenteio de um petisco
e um pato picaço arisco
passa por longe se espiando

As garças parecem fracas
voando contra o vento
e com jeito de sonolento
um socó chega de viagem
refletindo a imagem
numa água represada
as marrecas enfileiradas
retocam a maquiagem

Um “ocalito” solitário
se espanejando ao vento
nas grimpas um carancho atento
aos caramujos do lagoão
e dentro de um valetão
cardumes encurralados
e um canarinho arranchado
na casinha “dum” moirão

E vai mudando o cenário
pra voltar tudo ao que era
e a várzea fica na espera
por um dia, dois ou três
quem sabe se até um mês
um ano ou mais um pouco
para que o rio fique louco
vindo pra ela outra vez

domingo, 5 de setembro de 2021

PORONGO

 

Rude utensílio campeiro
com verniz ao natural
faz parte do ritual
na ceva do chimarrão
e no aconchego do galpão
quando o tempo dá tempo
eu me refresco ou me aquento
contigo nas minhas mãos

Com goles de água quente
a tradição tu conservas
quando a infusão da erva
em teu bojo faz espuma
e a bomba se apruma
pra que a seiva chegue em mim
e eu sorva até o fim
o mate que tu me arrumas

Lá nos tempos de guri
te ajeitava pra um ninho
onde corruíras ou canarinhos
chocavam na primavera
e na saudosa tapera
com uma corda em teu pescoço
te mergulhava no poço...
"que água boa que era"