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quarta-feira, 19 de abril de 2023

RANCHO VAZIO



Uma tarde sombria

um ventinho frio

uma saudade quente 

o rancho vazio 


As horas se arrastam

de um jeito vadio

e o tempo ignora

o rancho vazio


O dia troteia

num cavalo "tordio"

enchendo de poeira

o rancho vazio


A perdiz se despede

propagando o pio

e o eco aproveita

o rancho vazio 


A noite se veio

o dia partiu 

a lua espia

o rancho vazio


A coruja se achega

num voo macio

tendo por mirante

o rancho vazio


Um galo cantou 

o tempo seguiu

da noite pra o dia

com o rancho vazio


terça-feira, 18 de abril de 2023

MOTORES DE PELO

Beija-flor, Marinheiro,

Diamante, Az de Ouro,

quatro tratores de couro,

que eu mesmo amansei 

e até o preço nem sei 

pois não penso em vendê-los 

esses motores de pelo,

quatro monarcas de lei.


Não dão alce numa canga,

tanto em coxilha ou banhado,

numa carreta ou arado,

nada deixo pra depois.

Com quatro ou de dois a dois,

toco a lida que me toca,

porque a vontade provoca

só ao olhar pros meus bois!


São crias desta querência,

do mesmo dia os machos,

três  deles criados guachos

e o outro ao pé  da vaca,

na garantia das patas,

com eles nada refugo,

tal qual os bois de sabugo 

na carretinha de lata.


segunda-feira, 17 de abril de 2023

O ABRAÇO DA SAUDADE

 Abri o armário do tempo

com a chave da saudade

e iniciei uma viagem

sem ter dado nenhum passo 

fui longe num devaneio

onde a infância então veio

me arroxar num abraço


Trouxe lembrança da casa

da escola e da gurizada

da primeira namorada

tudo num breve repasse

trouxe imagens desbotadas

que ficaram ofuscadas

com as lágrimas da minha face


Passei a chave de novo

girando agora ao contrário

pra que de dentro do armário

não me roubem as lembranças

pois quando bater a saudade

quero ter a felicidade

de me encontrar comigo criança


quarta-feira, 12 de abril de 2023

UM POSTAL DE SECA

Quase meio ano sem chuva 

nem sinal de uma neblina

até a velha cacimba

também fez racionamento 

com o sol e a sede do vento 

o banhadinho se foi

deixando o rastro do boi

qual uma fôrma de cimento 


A lavoura esborrachada

mais pra lá do que pra cá 

tristeza igual não há 

do patrão e do peão

dela depende o pão 

na mesa de cada um

é o sofrimento comum

sem avaliar posição 


Porém os velhos coqueiros

magrelos e escabelados 

pelo vento desconfortados

mantinham sua altivez 

o jacaré por sua vez

na lei da sobrevivência 

cambiou pra outra querência

fugindo da escacez 


As garças alçaram voo

"braceando" contra o vento

e um gavião mais que atento

patrulhava com o olhar

um corvo a revoar

tenteava algum bicho morto

e no capão o desconforto

do gado a se mutucar


Foi dura a tal peleia 

tudo ficou arrasado 

um cenário desolado

com a seca avassaladora 

enfim a chuva confortadora

veio pra matar a sede

trazendo de volta o verde 

e a salvação pra lavoura

segunda-feira, 10 de abril de 2023

GALPONEIRO

Uma nesguinha de sol

já  bem no final da tarde

lambia a quincha do galpão 

um ventito caborteiro

desinquietava o mulato

que tratava a criação 


Entrou e fechou a porta

foi dar um jeito no mate

pra mod'esquentar o peito

juntou tição com tição

abanou com o chapéu

e cevou bem ao seu jeito


Pediu licença pra o gato

que ocupava o cepo

e  ao pé do fogo sentou 

numa mão trêmula o palheiro

com a outra atirou o chapéu 

onde o gato se deitou


Muitos invernos viveu

e quantos outros viverá

só  Deus sabe até  quando 

curtido pela fumaça 

sob a quincha de um galpão 

vai vivendo e chimarreando 


A carapinha tordilha

sarapintada pela idade

formando par com a barbicha

é mais um dos galponeiros

que não vê passar o tempo

enquanto a vida se espicha


quarta-feira, 5 de abril de 2023

MEU NINHO

Meu rancho de fé

meu canto meu ninho 

entupido de carinho

do chão ao Santa-fé


Meu rancho plantado

no pé da coxilha

de tosca mobília

meu mundo encantado


Meu rancho do carreteiro

em panela de ferro

e do primeiro berro

de um piazito manheiro


Meu rancho conforto

das noites e dias

que nas horas vazias

mateio absorto


Meu rancho da velha cordeona

que alegra meu canto

e do acalanto

pra prendinha chorona


Meu rancho e abrigo

com fogo-de-chão

do aperto de mão

e do abraço no amigo


Meu rancho meu lar

sem trancas e tramelas

onde a Prenda da janela

espia eu chegar


Rancho que traz

passado e presente

divina vertente

de amor e de paz


Minha reverência

meu rancho meu ninho

humilde ranchinho

minha eterna querência

quarta-feira, 29 de março de 2023

... DAS MADRUGADAS

Como é bom acordar cedo

ouvindo o cantar dos galos

o relincho dos cavalos

e o canto da passarada

passar uma água no rosto

cevar um mate a meu gosto

com sabor de madrugada


Como é bom sentir o cheiro

das flores das laranjeiras

de apojar na mangueira

pra ter o leite nas casas

atiçar o fogo de chão

pra rescender no galpão

o cheiro do chibo nas brasas


Como é bom varrer o terreiro

levar pra o monturo o cisco

onde um lagarto arisco

se escapa da cachorrada

como é bom levantar cedo

no ritual do arremedo

de outras tantas madrugadas


segunda-feira, 27 de março de 2023

... DAS NOITES

As sombras se esconderam

dentro da noite escura

enquanto lá nas alturas

uma estrela cadente

se boleou rumo ao poente

e o taura "bombiando" o céu

rezou tirando o chapéu

fez um pedido bem crente


Lembrou do tempo de piá

que do escuro tinha medo

e tinha que guardar segredo

quando era feito um pedido

mas ele sem ter sentido

que santo não é brinquedo

revelava o segredo

e assim não era  atendido


Lá em riba outras estrelas

numa formação em cruz

orientam com sua luz

mesmo numa noite escura

aquele que se aventura

nas andanças pelo pago

com carência de afago

na esperança de cura


Contra a costa do mato

revoa um vaga-lume

e um suave perfume

vem de carona no vento

e mirando o firmamento

emponchado em suas lembranças

o taura bebe distâncias

num mouro ao tranco lento


quarta-feira, 15 de março de 2023

DESASSOSSEGADO

No silêncio das horas

quando o mate faz costado

sinto o peito apertado

por falta de um aconchego

junto do fogo percebo

uma visão que se forma

vem para mim e retorna

pra tirar o meu sossego


Meu cusco arrepia o pelo

rosna mas não se levanta

lá fora um galo canta

sem ser hora de cantar

ouço a cambona chiar

sem do tempo ter noção 

e na brasa de um tição

vejo alguém a me espiar


Levanto e abro a janela

vejo  as estrelas e a lua 

vejo a coxilha nua

quem sabe louca de frio

ouço do vento o assobio

entre o galpão e o arvoredo

levando nele o segredo

num galopar bem macio


Afasto bem os tições

recosto a cuia e cambona

e minha alma se arrincona

enquanto o coração bate

e na pelegama de um catre

campeio em busca do sono

pra num sonho ser o dono

de uma parceira pra o mate


domingo, 26 de fevereiro de 2023

CHEIO DE RAZÃO

Com dez anos de namoro

e mais uns cinco de noivado

começou ser pressionado

pela família da moça

eu peço que tu me ouças

disse o velho num alvoroço

vamos resolver o caroço

ou hoje "quebremo" a louça


Não gostou mas ficou quieto

e mais tarde deu uma resposta

se o senhor gosta ou não gosta

pouco importa para mim

e pra isso ter um fim

e parar com lero-lero

eu vou dizer como quero

e terá que ser assim


De hoje em diante sua filha

terá outro tratamento

porque pra mim casamento

não é um assunto sério

tenho fama de gaudério

assim na boca do povo

sujeito a casar de novo

ou me envolver em adultério


Com o olho dentro do olho

brabo como mamangava

sustentou sua palavra

mas não partiu pra violência

debochou numa reverência

tocando a aba do chapéu

e disse olhando pra o céu

que família sem paciência