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segunda-feira, 24 de junho de 2019

SINA CAMPEIRA

Foto própria

Depois de acertar as contas
dos tantos anos de lida
a porteira se abriu
permitindo-lhe a partida

Nos olhos veio a poeira
numa triste  despedida
e é claro que um peão chora
se a alma parte sentida

Novos rumos pra seguir
e um incerto porvir
em sua sina campeira

Conta com a sorte nos tentos
e a confiança que São Bento
lhe abrirá nova porteira

segunda-feira, 17 de junho de 2019

M E D I T A Ç Ã O

Foto de Janaína Real de Moraes. 
Quando a vontade te deixar de lado
e o tédio te fizer revoltado
busques a fé com uma oração
quando a ânsia prender tua fala
e tua perna chamar a bengala
segures firme confiando na mão

Quando sentires o peso da idade
e a mala gorda de tanta saudade
não te enclausures e fiques paciente
quando a tristeza quiser teu olhar
e a fraqueza quiser teu andar
redobres a força e toques em frente

Quando o pensamento errar o caminho
e a solidão rondar o teu ninho
lembres Daquele que ama os filhos Seus
quando a alegria te trouxer a calma
leves a pureza pra dentro da alma
e agradeças as bênçãos e a força de Deus

segunda-feira, 3 de junho de 2019

NO SUL DO MEU MUNDO

Desenho no paint brusch do windows.

As folhas foram aos pouco
se despencando dos galhos
no galpão o pai-de-fogo
se renovou no borralho
é o sintoma do outono
e  prenúncio da invernia
deixando as noites compridas
pra que se encolham os dias

As nuvens de pala cinza
chegam gordas de água fria
e o Minuano entre as casas
notas geladas assobia
chega também o Campeiro
com seu sopro de arrepio
a criação se enrosca
tremendo e “grune” de frio

Nas várzeas um esbanjar d’água
nas coxilhas aragem fria
o sol vai dormir mais cedo
a lua se arrepia
e as estrelas ficam longe
dum inverno rigoroso
que o gado arrepia o pelo
e o campo branqueia o toso

E aqui no Sul do Meu Mundo
bem onde vem dormir o sol
a geada branqueia tudo
cobrindo com seu lençol
o taura porém resiste
seu pala aguenta o repuxo
pois pra viver nestas plagas
só mesmo sendo gaúcho

terça-feira, 28 de maio de 2019

... DA INFÂNCIA

Foto de Giancarlo M. de Moraes.
Quero lembrar do meu tempo,
quando morava lá fora,
mais que ansioso espero a hora,
para ouvir os quero-queros,
gritando lá no potreiro
e comer rapa de carreteiro,
feito em panela de ferro.

Quero brincar de mangueira,
na raiz daquele umbu,
onde este pequeno xiru,
se achava o rei do gado.
Quero quebrar a quietude,
“alvorotando” o açude,
num baita banho pelado!

Quero melar lixiguana,
abelha e camoatim.
Quero subir no cupim,
que foi parceiro discreto,
quando dava um alce a lida,
em aventuras proibidas,
num lugarzito secreto.

Quero pescar de caniço,
na sanguinha da divisa,
onde usei a camisa,
improvisando uma rede
e depois do arrastão,
juntei as conchas das mãos,
cheias “d‘água” pra minha sede.

Quero montar a cavalo,
naquele gateado meu,
pra mostar que ainda sou eu,
num tiro de quadra e meia,
depois voltar pra ramada,
com a tala bater espada,
arremedando uma peleia.

Quero fazer outras lidas,
que não dá pra ser agora,
mas quando chegar lá fora,
na querência onde nasci,
quero esquecer a cidade,
varrer pra longe a saudade
e de novo ser guri!

quinta-feira, 23 de maio de 2019

CAVALGADORES

Na pessoa deste parceiro JORGE LUIZ LARANJEIRA, homenageio a todos da lida. (Serra do Corvo Branco - SC).

                                                       
Se confundem com centauros
nas canhadas e nas coxilhas
pelas estradas e trilhas
no lombo do “nobre amigo”
levando sempre consigo
o amor pelo Rio Grande
pelos confins onde andem
nunca lhes negam abrigo

Camaradagem e parceria
sempre levam nos peçuelos
não tem de raça e nem pelo
todos são iguais na tropa
do chapéu até a bota
e do rabicho ao buçal
o homem e o animal
solícitos seguem a rota

Reverenciando heróis
ou fatos de nossa história
cumprem sua trajetória
semeando amizade
na campanha ou na cidade
são aclamados pelo povo
sendo velho ou sendo novo
tradição não tem idade

Que estes homens centauros
não desistam desta lida
isto faz parte da vida
é um vício bom e acalma
o seu ego bate palma
pois do Rio Grande és vassalo
levando ele a cavalo
com toda a força da alma

     

quarta-feira, 15 de maio de 2019

QUANDO A CUSCADA SE PEGA

http://www.tudodesenhos.com

Um brasino tigrado,
outro oveiro lanudo,
dois cachorros macanudos
igualando-se em tamanho.
O brasino num arregano
mostrava todos os dentes,
como quem diz sai da frente,
que sem demora te lanho.

O lanudo arrepiou o pelo
da cola até o pescoço,
atento roncando grosso,
pronto pra um bote certeiro.
O brasino traiçoeiro,
se abaixou num movimento,
dando um salto violento
que atirou longe o oveiro.

Saiu-se bem o lanudo,
pegando o outro na orelha,
a peleia ia parelha
daqueles dois combatentes,
se embolaram e de repente
se ergueram em duas patas,
quando coloreou a gravata
numa cruzada de dente.

O brasino pegou firme,
tremeu a perna o oveiro,
se espichando no terreiro
parecendo uma cobra,
mas numa brusca manobra
pegou o outro pra valer
e é aí que a gente vê,
como um cusco se desdobra.

Custaram separar os dois
porque nenhum se entregava,
um largava o outro pegava,
nenhum queria dar trégua.
Andavam lá na macega
na encarniçada peleia,
chomico! que coisa feia
quando a cuscada se pega.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

ESPIANDO O NATAL



Numa manhã de Natal
a criançada se ergueu cedo
ansiosas pelos “binquedos”
que o Papai “Nonel” deixou
a folia das crianças
contagiava a estância
mas teve um que não achou

Foi o filho do peão
que lá do seu rancho pobre
onde a escassez dos cobres
convive no dia a dia
da moldura da janela
espiava toda a trela
e a pompa da mordomia

Nunca se queixou por pobre
foi guri criado assim
e sua infância enfim
não foi ele que escolheu
e aquela mini figura
que espiava na moldura
adivinhem... era eu

sábado, 27 de abril de 2019

MEU NACO DE CHÃO

Foto de Giancarlo M. de Moraes

Andei por pagos estranhos
por este mundo de Deus,
mas nenhum é como o meu,
onde deixei o umbigo.
É só aqui que consigo
viver bem a minha moda,
porque ninguém incomoda
e vivo rodeado de amigos.

Aqui tenho o meu rancho,
onde chimarreio cedo,
tenho a china e o piazedo,
todos em volta de mim.
Eu também cresci assim
com os pais e os irmãos,
num rancho de barro e chão,
com a quincha de capim.

Aqui enxergo mui longe
respirando o ar puro.
Aqui também me misturo
com este cheiro de pasto,
quando no campo eu passo
com um entono de galo,
escaramuçando o cavalo,
enforquilhado no basto.

Aqui me encontro com Deus,
o nosso Patrão Maior
e levo a vida melhor
do que muito homem rico.
Aqui me identifico,
neste meu pago farrapo,
onde herdei este naco
do meu Rio Grande bendito!

quarta-feira, 10 de abril de 2019

... DAS NOITES NO CAMPO

Foto de Giancarlo M. de Moraes

Em despedida o sol declina
levando o dia na garupa
e a noite chega num upa
por detrás do cinamomo
qual soberano no trono
destaca-se na paisagem
abrigando em sua ramagem
as aves que vem pra o sono

O campo espera o sereno
pra umedecer as cobertas
que a noite trará na certa
se o vento permanecer quieto
um universo de insetos
inicia sua labuta
no floreio da batuta
de um grilo desinquieto

Madrugada e um fio de lua
se confunde no arrebol
e o bigode do sol
refletirá nos retalhos
como a acender o orvalho
do cobertor campesino
prenunciando o matutino
como brasa no borralho

terça-feira, 2 de abril de 2019

ÚLTIMA CARREIRA

Foto autor desconhecido

Foi num domingo de maio
depois da Semana Santa
no bolicho do Tio Dantas
entre trago e fumaceira
que se ajeitou a carreira
do petiço com o cabano
que fechava cinco anos
procedente da fronteira

Se “acertemo” nas propostas
de tiro, peso e parada
se repartiu a indiada
uns contra outros a favor
Tio Dantas e o julgador
eu e o dono do gateado
“deixemo” tudo registrado
da baliza ao partidor

Até o dia da carreira
corria boato e mais boato
que o Nanico era pacato
e o Cabano um pilungo
na boca de todo mundo
o assunto era um só
mas pra desatar o nó
foi vinte e poucos segundos

O jóquei foi meu caçula
que também era nanico
e se embodocou quietito
no lombo do petiçote
como cobra deram um bote
tapando o outro na poeira
e “peleguiemo” a carreira
como quem dança um xote

Foi aquele alarido
dos que eram do meu lado
entraram no capinado
pra ir de encontro ao Nanico
com patacoadas e gritos
e até soltando foguete
e carregaram o ginete
o meu jóquei favorito

Correu com sobra de pata
o meu petiço Nanico
quebrando assim o bico
do gateado desafiante
e quem assume se garante
em cumprir conforme o trato
mas o outro “guspiu” no prato
e não me pagou o tratante

Me controlei pra exemplo
ao meu caçula na hora
achei melhor ir embora
antes de coisa pior
pois nosso Patrão Maior
será um dia o julgador
e com todo o Seu amor
nos dará algo melhor

Não sou de aparecer
nem tenho jeito pra isso
porém desfazer meu petiço
doeu na alma deste peão
e por detestar confusão
vou desistir de carreiras
pois tenho outras maneiras
de ganhar meu próprio pão