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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

COISA DE RAPAZOTE


Foi num sábado de aleluia

na bailanta da Dalila

que se esvaíram meus pilas

e a guaiaca ficou oca

porém eu tirei a touca

que sempre tive desejo

com um balaio de beijos

sugados de muitas bocas


Tapado de quero-quero 

tomei conta do surungo

bancando pra todo mundo

como fosse um milionário 

e naquele turvo cenário 

na escassez da "querosena"

a noite ficou pequena 

"pra completar o rosário"


Fiquei de guaiaca murcha 

nem o cheiro das patacas

o prenúncio de ressaca

no bafo de canha e vinho

e aquele doce carinho

que me fazia soberano 

foi sumindo do meu plano

que era de trazer pro ninho


Foi coisa de rapazote 

co'as ideia emborrachada 

uma farra véia botada

sem ter arrependimento 

uma façanha de momento 

no surungo da Dalila

onde deixei todos pilas

que juntei pra o casamento 


Ando meio abichonado

porém remorso não sinto 

me vejo num labirinto

fazendo certas manobras

ando arisco da sogra

que me mandou um recado

mas eu sou "arressabiado"

por ser picado por cobra

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

QUANDO RELUMBRA A BOIEIRA

 

Bem no finzinho da tarde

a noite reponta o dia

pra pousar lá no poente

e a estrela boieira

como um sinuelo pras outras

surge calma e reluzente 


O gado manso se achega

pra o pernoite junto as casas

como quem já traz o sono

galinhas trepam poleiros

e o "até amanhã!" de um cardeal

na copa do cinamomo


A chama de um candieiro 

brota lá dentro do rancho

enfumaçando o capim

com o mate já cevado

a china lida na volta 

e as crias se vem pra mim


Pego o caçula no colo

que me acaricia o rosto

com sua mãozinha fina

e a guria se enciúma 

quando na volta do braço 

cincho a cintura da china


E no aconchego do rancho

com carinho e com saúde 

me firmando na raiz

junto co'a china e os miúdos 

parece pouco mas basta

pra que eu viva feliz


sábado, 29 de julho de 2023

PANELA DE FERRO




Usei a panela cascuda
pra fazer um carreteiro

quem foi da lida não muda
os costumes de campeiro

Mesmo com esta aparência
tisnada pela fumaça
guardarás sempre a essência
por mais uso que eu te faça

Cavalgaste muito tempo
na anca dependurada
atada em rudes tentos
acompanhando as tropeadas

Tempo que ficou pra trás
de trempes fogo e braseiro
hoje num fogão a gás
te ajeito pra um carreteiro

segunda-feira, 17 de julho de 2023

VONTADE DE FICAR

Quando cheguei na tapera

ela me olhou com tristeza 

desprovida da beleza 

e do perfume de jasmim

o arvoredo e o jardim 

dava pena do abandono

e do velho cinamomo

que não se lembrou de mim 


Cabresteando a gateada

fiz a volta na tapera

lembrando como ela era

chorei silenciosamente 

depois voltando ao presente

dei um tiauzito pra ela

e um aperto na goela

me fez chorar novamente 


Então cruzei a porteira

busquei a volta da gateada

tristonho peguei a estrada

levando lágrimas no olhar

e a vontade de ficar

tomou conta deste cuera

que voltará à tapera

nem que seja pra chorar


quinta-feira, 13 de julho de 2023

NAMOREI A LUA


A boca da noite

me trouxe um beijo de luar

beijei a boca da noite

mesmo sem alcançar 


No céu da noite

o brilho do luar

no céu da minha boca

o beijo a orbitar


A lua me namorava

porque gostava de mim

mas o sol louco de ciúme 

no namoro pôs um fim

sábado, 8 de julho de 2023

TERREIRO DA SAUDADE

No terreiro lá de fora

a vassoura de carqueja 

dançava todas as manhãs 

era mais uma peleja

de muitas outras tarefas

que tinham minhas irmãs 


No terreiro lá de fora

tinha um pé de laranjeira 

onde os sabiás faziam ninhos

e uma frondosa figueira 

onde eu sorrateiramente 

negaçeava os passarinhos


No terreiro lá de fora 

tinha galinhas patos e gansos 

e um angico plantado

uma corda pra balanço 

a casa do meu cachorro 

e um cocho feito a machado


No terreiro lá de fora

tinha um antigo rebolo

para afiar as ferramentas 

tinha um forno de tijolo

e um taquaral bem fechado

pra o lado que vem tormentas


No terreiro lá de fora

tinha as minhas mangueiras 

que não tenho na cidade 

lá sobrevive a figueira 

e o tronco seco do angico 

palanqueando minha saudade


quarta-feira, 28 de junho de 2023

ENTRE O REAL E O SONHO

A criança que eu fui

às vezes em mim desperta

não tem dia nem hora certa

quando vejo sou guri

cavalgando aqui e ali

no lombo do devaneio 

sem os pelegos e o freio

na querência onde nasci 


Não escolho itinerário 

nas fantasiosas jornadas

 recorro muitas estradas

e corredores sem fim

mas volto pra donde vim

pois o pingo sabe o rumo

e na garupa me arrumo

porque o guri quer assim


Sem ter hora pra voltar

prossigo a cavalgada

e pelo meio da estrada

reparto uma tropa de nilos

e num galopar tranquilo 

vislumbro o rancho tristonho

e entre o real e o sonho

o guri tira um cochilo


quinta-feira, 22 de junho de 2023

O PESAR DE UM DOMADOR

Vou aposentar as esporas

sentenciou o velho ginete

estou perdendo o cacoete 

já não sou mais o que era

foi-se a gana deste cuera

que quando via uma potrada

tenteava todas as boladas

como um tigre na espera


Também de hoje em diante

só encilho cavalos mansos

dando pras esporas descanso

e serviço pra o garrão

no caso de uma precisão

num aperto de mangueira

ou em largada de carreira

que é um vício deste peão


Apesar dos contratempos

boa saúde ainda tenho

e se às vezes enrugo o cenho

não  é por dor ou por medo

é admirando o enredo

em que se envolve meu neto

gineteando desinquieto

um cavalinho de brinquedo


Assim que foi sua prosa

pra peonada no galpão

na presença do patrão 

numa atitude de respeito

sentindo dentro do peito

o coração corcoveando 

como um bagual se domando

aos "tirão" num parapeito 


A tristeza em seu rosto

trouxe lágrimas à tona

pois foi criado na doma

ginetaço de valor

e nesta lida professor

por este Rio Grande afora

eternizando as esporas

na função de domador


Outros ginetes virão 

para domar sem esporas

a filosofia de agora

não permite a doma antiga

e ainda tem lei que obriga

fazer curso pra domar

mas temos que acatar

pra que o Rio Grande prossiga 



sábado, 17 de junho de 2023

CULPA DA LUA

 

Clareando o horizonte

lá longe desponta ela

bem cheia e bem mais bela

trazendo pra noite o encanto

e com a quincha do rancho

tal uma colcha prateada

dou um beijo na amada

e em carinhos me desmancho 


Uma brisa passeia na noite

em companhia da lua

e um aroma flutua 

das flores da laranjeira 

uma coruja campeira

dá um chiado mas não voa

e na beira da lagoa

um sapo chama a parceira


Noite de lua cheia 

onde os duendes esvoaçam

noite que as mágoas passam

como a água de um rio

e no cenário luzidio 

um cusco chega de longe

que só Deus sabe de onde

veio pra farra do cio


O romantismo da noite

não deixa almas vazias

e antes de clarear o dia

um grilo "ergue" o volume

sai num voo um vaga-lume

com todo o resplendor 

pra encontrar um amor

ou fazer para a lua ciúme 


terça-feira, 6 de junho de 2023

PRA UM ACONCHEGO


Só faltam cinco léguas 

Não te entrega meu tordilho

prometi pra prenda e os filhos

que no fim do mês iria

pra passar uns vinte dias

somente em roda do rancho

como disse nos garranchos

num bilhete pras gurias


Vou aproveitar a folga

pra dar e receber carinho

no aconchego do ninho

no rancho que Deus me deu

e também me concedeu

a felicidade a saúde 

e o amor por virtude

para amar tudo que é meu