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domingo, 5 de abril de 2020

DE TAPAPÓ E BOMBACHA


Foto de Janaína Real de Moraes

Quando o piá passou de ano
tiveram que mudar os planos
e a rotina da vida
numa mudança de querência
mesmo com pouca experiência
partiu a família unida

Carregados de saudade
lá num canto da cidade
se arrinconaram enfim
e num lote de terreno
um pouco mais que pequeno
rancho de barro e capim

De tapapó e bombacha nova
na escola enfrentou uma prova
para ser avaliado
e numa sala solito
se destorceu o piazito
dando conta do recado

Caminhando em calmos passos
entregou a folha de almaço
e se preparou pra leitura
foi até o fim sem gaguejo
aproveitando o ensejo
pra entonar sua figura

De matrícula confirmada
bom de leitura e tabuada
se foi rumo ao saber
queria ser um doutor
desses pra curar a dor
dos que estão a sofrer

Os meses foram passando
o fim de ano chegando
e o piazito sempre aquele
estudioso e dedicado
e quando veio o resultado
o primeiro lugar foi dele

E hoje lá no terreno
não tem o rancho pequeno
mas sentimento e amor
onde uma casa bonita
tem uma placa que indica
a morada de um doutor

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

AVIOS DO TEMPO



Quando a cuia se aninha
na concha da minha mão
pra trazer um chimarrão
de manhã ou à tardinha
parece até mesquinha
encabulada e com medo
como se fossem os meus dedos
tateando involuntários
adentrar no herbanário
pra descobrir seus segredos

Velha parceira de andanças
das chaleiras e cambonas
da minha alma gaviona
embora ainda criança
trazendo à minha lembrança
fosse entupido ou não fosse
presenteava um mate doce
e quando a água findava
rindo a gente zombava
“quem tomou se arregalou-se”

E a velha bomba prateada
que até hoje me acompanha
acalmou a minha manha
na boca atravessada
quando mamãe atucanada
inventava uma mutreta
te tirava da gaveta
pra que este chorão calmasse
e “intertido” ficasse
enquanto não vinha a teta

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A DO MEIO

Foto de Gilberto Moraes Jr.



 Quando o capataz se aposentou por força da lei, eu tava ali ali pra ir pro quartel. 

Seu Mulato, cedeu a vaga pra um sobrinho, que veio de muda com a família.

O novo capataz, a exemplo do tio, era homem pra toda a lida. Logo foi conquistando o pessoal da casa. Campeiro era ele. Tinha três potrancas crioulas, por sinal, um privilégio da morfologia, mas a do meio...!!! Boa de encontro, anca larga, crinuda e tudo mais o que agrada. 

Me apaixonei de vereda. Era uma e duas e eu tava montando, às vezes em pelo, outras apenas um pelego me forrava os joelhos. Nunca usei buçal nem freio, a boca sempre livre.

Chegou num ponto que o novo capataz falou pro meu pai pra que eu saísse uns dias e talvez encontrasse uma que combinasse mais comigo, que fosse registrada e tals.

Bueno, pra encurtar a história, fui para o quartel e na primeira carta que mamãe me escreveu disse: meu filho, temos novidade, o novo capataz falou pro teu pai que sabia que a intimidade tua com a guria do meio ia resultar em cria.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

INQUIETUDE





O sol rachando de quente
nenhuma nuvem no céu
cruza na estrada um vivente
sombreado pelo chapéu

Ligeirito segue em frente
qual um soldado marchando
é a inquietude do vivente
que sobrevive changueando

Vai o verão vem o outono
o inverno e a primavera
ora operário ora colono
ora tenteando na espera

A idade arca no lombo
e a força foge dos braços
e entre tropeços e tombos
perde o rumo dos passos

Quando a sombra da morte
lhe envolver com seu véu
talvez ache seu norte
numa estrada pra o céu

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

MENSAGEM


O Ano Novo ficará velho,
assim como o velho foi novo,
que tudo que não foi bom não volte
e o que foi bom venha de novo!

domingo, 12 de janeiro de 2020

O RIO GRANDE NO GALPÃO

Foto de Jorge Luiz Laranjeira

Braseiro, espeto, sal
e uma ponta de peito,
pra ninguém botar defeito,
nem criticar o ritual,
um trago ao natural
no bico de um borrachão,
a cuia de chimarrão
no sentido anti-horário,
está o Rio Grande Lengendário
convivendo em meu galpão.

Uma prosa, um lembrete,
cantoria e pacholeio,
um rebenque no esteio,
junto as esporas de um ginete,
um basto no cavalete
sob os pelegos e o xergão,
e o calor do tição,
neste campeiro cenário,
aquece o Rio Grande Legendário
no interior do meu galpão.

Recuedos de quem foi moço,
na tisna do picumã,
o renascer das manhãs
no café com a água do poço,
lenço atado ao pescoço,
e firmeza no garrão,
o culto à tradição,
num costume voluntário,
é o Rio Grande Legendário,
morando no meu galpão.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

CAMBONEANDO




Estirado contra a parede na sombra do oitão do rancho, ressonava meu cachorro depois da lida de campo. Eu também tava sovado e tinindo por uma camboneada.

Juntei os tições com uma cachopa de palha, abanei com o chapéu avivando o fogo. Meia dúzia de minutos e tava cevado o mate.

Puxei um cepo e sentei perto do cusco, que levemente mexeu a cola como a me dizer: relaxa! Ali fiquei sugando a cambona enquanto o pensamento gauderiava pelo sem fim da memória. Meu cusco dava sintomas de que também andava longe dali.

Contemplei no horizonte as nuvens se juntando num rodeio de matizes como uma grande colcha de retalhos se estendendo sobre o sol que foi se achatando enquanto a sombra do oitão se espichava.

Roncou a cuia, secou a cambona, voltei a mim e cutuquei o cusco.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O SONHO DO VENTO

Foto própria

O vento calmo do fim da tarde convidou a taquareira pra dançar. Preguiçosamente seus cabelos se balançaram perdidos no compasso de uma dança lenta e de uma música surda.

Um bando de pássaros, hóspedes da noite, chegou num grande alarido para ocupar as “suítes”, sem perceber que atrapalhava o clima romântico vespertino.

Com isso, num repente, o vento irritado soprou mais forte, a cabeleira tornou-se esvoaçante e mesmo contrariada, a dança continuou num novo ritmo.

O sol retirou-se do “salão”, dando lugar à lua que com sua delicadeza e luz de prata, vagarosamente foi deixando as nuvens para que os dançarinos voltassem praquele sonho romântico.

O vento ignorando a bondade da lua extravasou sua ira em rajadas mais fortes, trazendo pesadas nuvens escuras e carregadas, dando fim ao sonho que não chegou a ser sonho, sem que a convidada tivesse culpa.
     

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

EU POR MIM


Sou descendente de campeiros
e de chinocas valorosas
criado nos galpões de prosas
com humildade e obediência
e este jeito carrancudo e meio rude
não faz que eu mude 
a bondade da alma
nem perca a calma 
ou o rumo da querência

Se fui criado lá fora
não quer dizer que sou grosso
e o lenço no meu pescoço
até hoje estou usando
não interessa a cor que nele eu trago
amo meu pago 
e para mim não faz sentido
ver inimigo 
em Maragato ou Chimango

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

DO CANTINHO DA MEMÓRIA

Foto de Jorge Luiz Laranjeira


Como era bom naquelas tardes de domingo,
que a gurizada se juntava pra brincar,
correr carreira em petiços de taquara,
virar “cambota” na areia e se rolar.

Como era bom preparar bem um caniço,
encher um porongo de minhocas e ir pescar,
molhar o barranco lá da sanga do potreiro,
deitar no barro pra depois se “resbalar”.

Como era bom trançar um laço de embira,
o doze braças ferramenta do campeiro,
de tardezita quando o sol dependurava
era uma farra para prender os terneiros

Como era bom sair melando lixiguana
e correr lebres de folia com a cuscada,
calar a faca numa melancia madura,
mais saborosa quando ela era “roubada".

Como era bom naquelas tardes chuvisquentas,
lá no galpão muita galhofa e brincadeira,
fogão campeiro engasgado de angico,
e o bolo frito abarrotando a frigideira.

Como era bom depois que a chuva passava,
ir pra janela que tinha no oitão da casa,
como era bom ver passarinhos e galinhas,
no “já-te-pego” com as formigas de asa.

Como era bom nas noites de lua cheia,
quando a cuscada não parava de uivar,
sempre saía um “corajoso” para fora,
pra ser mais homem e depois se pacholear.

Como foi bom ter vivido assim lá fora,
e hoje ter algumas coisas pra contar,
que se aninham num cantinho da memória,
e que nos fazem ora sorrir, ora chorar!