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quarta-feira, 20 de maio de 2020

AGUACEIRO

Foto de Eron Olivera da Silveira




Bateu água a noite inteira,
porém não foi temporal,
a várzea virou um espelho
e “remangado” até o joelho,
repontei “ozanimal”.

O aguaceiro da chuva,
escabelou o capinzal,
e branqueiam os guardanapos,
da tecelagem dos sapos,
da noite matrimonial.

Ainda uma chuvita mansa,
tamborilava o chapéu
e longe via-se um filete,
das aves que vinham pra o banquete,
se despencando do céu.

As nuvens pálidas e ralas,
já com o “ubre” vazio,
seguem destino com o vento,
que cansado tranqueia lento,
fraquejando o assobio.



SOBRE O "RINGIDO" DO BASTO

Foto de Carlos Alberto Tatsch



Como é bom encilhar o pingo
e sair sem rumo certo
sobre o "ringido" do basto
ir assobiando e sorrindo
cantando de peito aberto
marcando o pasto com o rasto

Como é bom ver o horizonte
ouvindo acordes do vento
de “riba” dos meus arreios
do quero-quero o afronte
e as rédeas do pensamento
guiando sonhos e anseios

APESAR DE ESTAR SOLITO

Foto de Carlos Alberto Tatsch
Madruguei e fui pra lida
lá na última invernada
era grande a pegada
de cerca palanque e estronca
levei até boia pronta
e o mate para a jornada

Passava do meio dia
e fui pra costa de um capão
improvisei um fogão
com as pedras do lugar
para a boia requentar
e cevar o chimarrão

Meu meio dia foi curto
porque a lida me chamava
mas a cerca se espichava
apesar de eu estar solito
pois sou taura e acredito
que o bom Deus me acompanhava

domingo, 10 de maio de 2020

FINO TRATO




Um vizinho que viera morar na redondeza, tinha umas filhas muito bonitas e dançadeiras. Quando entravam no salão, nas noites de baile, entravam sempre juntas e cada qual mais chamativa.
A rapaziada ficava de orelha em pé, na disputa pra dançar com elas, porém tinha um detalhe: elas se esquivavam quando o par não era do agrado e davam uma desculpa e entravam temporariamente para dentro do quarto das moças.
Aquilo foi se tornando comentado entre os moços e um deles, boa gente, dançador desengonçado e feio, de outra feita já havia levado um “não” de uma delas.
Certa noite, quando íamos para o baile, ele estava junto e jurou que dançaria com uma delas, custasse o que custasse. Nós aconselhamos de que não fosse arrumar encrenca, pois tanto ele como elas eram de famílias tradicionais da região. Ele só disse: 
- Deixa comigo!
Iniciou o baile sem a presença delas, porque era de costume sempre chegarem mais tarde. O feioso já tinha pago entrada e estava perto da porta do quarto das moças, como quem não queria nada.
A música animada, os pares dançando e de repente entraram as três e foram pelo costado da pista direto ao quarto onde o feioso estava de plantão.
Quando a primeira das bonitonas passou por ele, segurou no braço dela convidando pra dançar. Como sempre, ela arrumou uma desculpa de que tinham vindo de reboque e estava toda empoeirada e com cheiro de terra. O feioso arrastou ela para a pista de dança e disse:   
- VAI COM TERRA E TUDO, realizando assim sua promessa e piscando o olho quando passava por nós.



PAAARA A GAITA




Uma gaita de oito baixos
um violão e um pandeiro
um macanudo “candieiro”
na sala cinco por quatro
que emoldurava o retrato
de um surungo fronteiro

A lua espiava tudo
pelas frestas da parede
as chinas tal como redes
balançavam as tranças longas
e entre chamamés e milongas
os xirus matavam a “sede”

Madrugada um “PAAARA A GAITA”
ecoou do mestre-sala
e um trinta guspindo bala
espatifou o “candieiro”
calou-se o violão e o pandeiro
e foi um gritedo na sala

O mulherio se foi ao quarto
num desespero alucinante
clamavam a todo instante
por Jesus e Nossa Senhora
os machos romperam pra fora
levando tudo por diante

No lusco-fusco da lua
o rolo não dava trégua
e o arsenal da macega
ia suprindo a indiada
que gritava em patacoada
- quem é macho não se entrega -

Já não se ouvia mais tiro
só tinido de “daga” e facão
reboliço e confusão
lá pelo meio do campo
e alguns tronchos e outros mancos
se “reborqueavam” no chão

A lua foi se escondendo
espiando o entrevero
se desgarraram os parceiros
e se espalharam as chinas
porque peleia é a sina
destes surungos fronteiros

UM BAILE LÁ FORA




Cavalo, carroça, carreta,
trator, jipe, caminhão
bem na frente do salão
amontoavam-se na estrada
vinha gente da Picada
do Rincão Capão Bonito
lá da Vila do Mosquito
e do Passo da Cavalhada

Às oito horas da noite
tinha início a dança
no Salão Nova Esperança
de um tal Chico Machado
o gaiteiro bem pilchado
estreava uma gaita nova
prêmio que ganhou na trova
que disputou no estado

Seu Chico gente buena
é quem cobrava a entrada
controlava a rapaziada
junto com o mano Batista
sua filha uma artista
trança negra e amorenada
dessas que não perde nada
pras de capa de revista

Na copa um gordo careca
com um guardanapo no braço
tamborilava o compasso
com os dedos no balcão
ocupando a outra mão
para um aceno amistoso
enquanto um chamamé choroso
ecoava pelo salão

Prenda linda não faltava
cada qual mais dançadeira
tinha velha alcoviteira
e também um mestre-sala
antes fazia uma fala
deixando recomendando
pros moços serem comportados
se não sairiam da sala

Um punhado de aladins
clareavam que nem o dia
um mulato atendia
nas mesas pelos costados
usava um lenço encarnado
e sempre pronto a qualquer hora
com as canjicas de fora
dava conta do recado
  
De vez em quando as vassouras
chegavam para o salão
e dançavam pelo chão
espalhando parafina
a sola ficava fina
a bota passeava mansa
e a morenaça de trança
mirava de relancina

Vinha a hora do café
da meia noite pra o dia
quem arrumava guria
ia fazer um agrado
a velha ia do lado
acanhada mas faceira
servindo-se de primeira
a convite do namorado

A noite ficava curta
nem se via passar o tempo
tudo saía a contento
todos caiam na dança
e por lá nas minhas andanças
tive muito namorico
com a filha do seu Chico
no Salão Nova Esperança

segunda-feira, 27 de abril de 2020

AOS NETINHOS




Amados netinhos, doces criaturas
crianças lindas de olhar tão puro
Deus mandou vocês, presente das alturas
saudáveis, inteligentes, esperanças do futuro

Papai do Céu escolheu estrelinhas brilhantes
e juntou-as ao brilho do seu olhar
nem os maiores, nem os mais caros diamantes
aos seus olhinhos jamais vão se igualar

No futuro, já adultos, independentes
já formados, responsáveis e doutores
não esqueçam que nós plantamos suas sementes
e vocês serão sempre nossos pequenos, grandes amores.

Nunca esqueçam de suas origens: seus avós
que têm por vocês enorme afeição
pois os amamos muito, mais do que a nós
fisicamente estamos longe, mas sempre junto ao coração!
                                           Vó Marila - 2010

(publico, com muito orgulho, esta poesia que foi feita com imenso amor - de autoria da minha querida esposa e eterna namorada - Marilene Marques de Moraes, homenageando nossos netinhos).

terça-feira, 21 de abril de 2020

JUSTO MOTIVO

Foto de Gilberto Moraes Junior

Adelgacei bem o zaino,
aparei os cascos, tosei.
Madrugadita encilhei
e fui visitar um amigo.
Corredores e picadas,
estradas empoeiradas,
mas era justo o motivo.

Um fiambrezito a capricho
e um “biotônico” na bota.
Quem vai alegre nem nota,
quando se espicha a distância,
apenas sente o balanço,
o vento batendo manso,
e no coração uma ânsia.

Uma sesteada, um descanso,
uma folga dos arreios,
pra o pingo um pastoreio,
depois, de novo a estrada.
O sol me torra a melena,
mas claro que vale a pena,
sem amigo, não sou nada!

Vou lhe pagar a visita,
que me fez “j’algum” tempito,
levar um regalo ao piazito,
que batizei no Natal.
Já tem estampa de homem
e escolheram o nome,
igual ao meu, bem igual!

Quero abraçar meu compadre,
amigo desde piá,
dois dias tiro por lá,
lambendo o afilhado.
Tapo o guri de carinho,
porque aquele piazinho,
deixa meu colo sovado!

Desta vez eu vou solito,
pois o meu tempo é pouco,
daqui uns dias vem o sufoco,
da planta e da capina,
mas já está nos meus planos,
que mais para o fim do ano,
vou com a gurizada e a china!

terça-feira, 7 de abril de 2020

SOVADO DA LIDA

Foto de Gilberto Moraes Junior

Quando a sombra do mato
foi se banhar no açude
eu também assim que pude
pra água dei uma fugida
não tinha outra saída
com aquele calor danado
pra um peão que andava abombado
e mui sovado da lida

Mateio quando dá tempo
dou uma volteada no povo
se rodar me alço de novo
com as rédeas firme na mão
não me enrosco em confusão
e não mereço castigo
em cada pago um amigo
em cada amigo um irmão

Vou levando estrada afora
a vida que herdei do céu
e sempre tiro o chapéu
quando a Deus me refiro
é Nele que me inspiro
pra que não venha o fracasso
e tenha força no braço
até o último tiro

domingo, 5 de abril de 2020

DE TAPAPÓ E BOMBACHA


Foto de Janaína Real de Moraes

Quando o piá passou de ano
tiveram que mudar os planos
e a rotina da vida
numa mudança de querência
mesmo com pouca experiência
partiu a família unida

Carregados de saudade
lá num canto da cidade
se arrinconaram enfim
e num lote de terreno
um pouco mais que pequeno
rancho de barro e capim

De tapapó e bombacha nova
na escola enfrentou uma prova
para ser avaliado
e numa sala solito
se destorceu o piazito
dando conta do recado

Caminhando em calmos passos
entregou a folha de almaço
e se preparou pra leitura
foi até o fim sem gaguejo
aproveitando o ensejo
pra entonar sua figura

De matrícula confirmada
bom de leitura e tabuada
se foi rumo ao saber
queria ser um doutor
desses pra curar a dor
dos que estão a sofrer

Os meses foram passando
o fim de ano chegando
e o piazito sempre aquele
estudioso e dedicado
e quando veio o resultado
o primeiro lugar foi dele

E hoje lá no terreno
não tem o rancho pequeno
mas sentimento e amor
onde uma casa bonita
tem uma placa que indica
a morada de um doutor