Me levaram do galpão
lá pra cozinha da china
pra um mate de cola fina
de térmica em vez de chaleira
e a cambona chiadeira
se recostou num tição
saudosa do chimarrão
das madrugadas campeiras
Me levaram do galpão
lá pra cozinha da china
pra um mate de cola fina
de térmica em vez de chaleira
e a cambona chiadeira
se recostou num tição
saudosa do chimarrão
das madrugadas campeiras
Na hora do chimarrão,
pra judiar meu coração,
veio um gole de saudade.
Devagarito desceu,
queimando até o meu eu,
sem dó e nem piedade!
Meus lábios beijaram a prata
e daquele verde de mata,
veio de novo a saudade.
Me perguntei naquela hora:
por que eu vim lá de fora,
por que eu vim pra cidade?
Cada gole de saudade,
que sorvo aqui na cidade,
queima meu peito na hora.
Mesmo assim sigo mateando
e aos pouco vou consolando,
a ânsia de ir pra fora!
Numa postura de monge,
em pensamento vou longe
quando a saudade me vem.
Na cuia entrelaço os dedos,
pois talvez venham segredos,
nos goles que ainda tem.
Patrão do Céu agradeço
por estes momentos santos
quando "bombeio" o campo
daquele guri madrinheiro
mais tarde taura campeiro
fazendo sempre o melhor
e onde derramei o suor
nos mormacentos janeiros
E nas geadas macanudas
ou na carga do Minuano
este taura pampiano
fosse de noite ou de dia
a cavalo percorria
tendo o poncho como abrigo
e hoje aqui só revivo
tudo tudo o que eu fazia
Minha vista não é a mesma
e vê o campo embaçado
mal e mal divulgo o gado
e as ovelhas não vejo
do açude só um lampejo
quando o sol dá um pitaco
vislumbro lá longe o mato
palco de muitos falquejos
Mesmo assim te agradeço
Patrão Bueno das Alturas
de permitir esta criatura
campeirar pelo passado
e que os olhos embaçados
que enfumaçam o campo
sentem comigo num banco
pra que eu sonhe acordado
As galinhas num gingado
rumavam para o poleiro
as vacas vinham chegando
lá do fundo do potreiro
um guri tratava os porcos
o outro prendia os terneiros
e pelas "Ave Maria"
a tarde se despedia
no cantar do João Barreiro
Assim terminava a tarde
assim findava o dia
a noite trazia a lua
cheia de encanto e magia
o vento quebrava o silêncio
assobiando uma melodia
uivava a cachorrada
e no rancho a gurizada
depois de uns causos dormia
Por volta da madrugada
os mais velhos estavam em pé
com uma boia de sal
reforçavam o café
mais tarde a gurizada
com cara de jacaré
repartiam a gamela
para tirar a remela
e os tatus do chaminé
Lá em casa e na vizinhança
o galo tocava o clarim
marcando a "hora da pegada"
pois tinha que ser assim
e depois no entrar do sol
a jornada tinha fim
e hoje a tal de saudade
quando vem para a cidade
sempre procura por mim
Sob a proteção Divina
num rancho de santa-fé
com os filhos e a "muié"
morava o seu Antenor
conhecido benzedor
o qual além das fronteiras
suas rezas milagreiras
curavam o mal e a dor
Frente ao rústico oratório
de imagens bem povoado
ajoelhava-se concentrado
com toda sua devoção
segurava a testa com a mão
e permanecia em silêncio
velas acesas e um incenso
balbuciava a oração
Com um copo d' água e um ramo
com voz rouca e muito calma
aquela bendita alma
sem auxílio de missal
iniciava seu ritual
e o rancho de santa-fé
era um templo de fé
um reduto celestial
E naquele rancho santo
no meu tempo de guri
muitas vezes me benzi
pelas dores aturdido
e ficava encolhido
qual rodilha de cipó
no colo da minha vó
que me acariciava o ouvido
Desce da árvore miúdo
larga de ser teimoso
já falei que é perigoso
mas não houves meu conselho
tu te ajeita fedelho
e trata de obedecer
ou então vais aprender
na escola do meu relho
Montado em uma forcada
ele balançava as pernas
como quem já se governa
se achando o maioral
o "seu fulano de tal"
mas quando chegou o pai
não teve de ai ai ai
e fechou o temporal
Mal botou o pé no chão
teve um puchão na orelha
que nem ferroada de abelha
dói como aquele doeu
até a mãe se comoveu
mas ficou firme a criatura
e a bainha que era dura
com a sova amoleceu
Rio Grande "Galpão" do Sul
que no cheiro da fumaça
sinto quando tu passas
e segues batendo estrivo
num flete raçudo e altivo
a pelear pelas coxilhas
onde tauras Farroupilhas
morreram pra tu estar vivo
Chimarreando junto ao fogo
me vem a tua imagem
de bravura e de coragem
de raça e de amor
vejo o Pavilhão Tricolor
tremulando numa lança
pra nos deixar como herança
a honra e o valor
E nas estradas que vou
a poeira é tua fumaça
que na volta me abraça
com um aperto bem cinchado
e com os olhos fechados
seguro o chapéu nas mãos
e no silêncio de uma oração
agradeço o legado
Rio Grande "Galpão" de tauras
valentes e aguerridos
de heróis reconhecidos
pela fibra e a coragem
e quando volto das viagens
que faço nos devaneios
dou vaza a meus anseios
pra te render homenagens
O Patrão Maior te plantou
cravando fundo a raiz
para que no Sul do País
os tauras tivessem abrigo
e desde o tempo antigo
"tu tranca o pé na macega"
e o gaúcho não se entrega
peleando junto contigo
Do portão até a casa
dois carreiros de hibiscos
um banco de cada lado
e a imagem de São Francisco
Borboletas num bailado
muitas flores nos canteiros
e um rancho no cinamomo
pertencente ao João-Barreiro
Na parede junto a aba
a casa de marimbondos
que quando eu enticava
levava ferrão no lombo
A verde grama aparada
um tapete natural
onde se aninha o sereno
com suas gotas de cristal
Uma centenária figueira
espalha a sombra no chão
lá na sanga o carneiro
bate e bate o coração
Pequena mata nativa
lar de muitos passarinhos
que passam horas cantando
pra retribuir o carinho
É um naquinho gaúcho
é nossa querência amada
para o descanso da família
e a bagunça da piazada
Botei uma encilha a capricho
vesti uma pilcha de gala
engarupei o meu pala
e me benzi no bolicho
Segui num trote marchado
"sombrero" tapeado ao vento
e dentro dele o pensamento
nas chinas lá no povoado
O sábado prometia
que a noite ia ser baguala
daquelas de encher a sala
se misturando com o dia
Dos quatro pontos cardeais
viriam chinas as pencas
e com elas as encrencas
e algumas "coisitas" mais
Uma gaita de oito baixos
fez convite pra um legueiro
se acenderam os candieiros
e se assanharam os
machos
Na copa ninguém ficou
nem pensavam em peleias
e até para as mais feias
um "ossito" também sobrou
A voz de um missioneiro
ultrapassou a fronteira
na sala levantou poeira
e a lua clareou o terreiro
As botas batiam taco
e se arrastavam as "alpargatas"
e lindas chinas mulatas
já debaixo do sovaco
Os pares num tom brejeiro
se ajeitando aos pouco
na copa voltou o sufoco
mas se alegrou o copeiro
Servia licor pras chinas
e para os machos cachaça
pros velhos tinha bolacha
e "una sopa de gallina"
O gaiteiro não se entregou
nem o cuera do legueiro
e o cantador missioneiro
cantando se debochou
Um surungo de respeito
de se "sacar el sombrero"
e os mortos no terreiro
no outro dia deram um jeito
A lua cheia se espalha
pelas várzeas e coxilhas
sendo a oitava maravilha
com o brilho de safira
que lá do céu se atira
qual uma cortina de prata
com o encanto das cascatas
onde o silêncio se retira
Cai um pedaço de lua
nas asas de um pirilampo
e num passageiro relampo
na noite zigue-zagueando
quem sabe um código mandando
no seu voo desinquieto
pra ter também o afeto
de alguém que'stá lhe esperando
Vou contemplando minha sombra
que na estrada se projeta
e com cisma de poeta
um soneto de improviso
na minha ideia diviso
quando se acertam as rimas
e a lua lá de cima
me ajuda se for preciso
Prossigo pela estrada
em companhia da lua
rumo ao rancho da chirua
pra umas horas de afago
a mais linda do meu pago
minha eterna paixão
que só o meu coração
sabe o que nele trago