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quinta-feira, 23 de maio de 2013

ANDARILHO


Sem sorte e sem rumo certo,
passou nas estradas e nos corredores,
fantasiando sonhos de muitos amores,
com cartas velhas, nos papéis em branco.
Mais de cem cuscos lhe fizeram guarda,
chuva, sol quente e brasinas geadas,
calaram fundo, mudando seu tranco.

Tinha um sorriso pra cada pessoa
e um buenas tarde de tremer o peito,
alguma changa, quando desse o jeito,
pra os pilas curtos render canha e fumo.
Sua pilcha, de remendos largos,
um pala branco, que já estava pardo
e um chapéu preto, que virou lobuno.

Por lobisomem, ás vezes passava,
na prosa séria da vil gurizada,
em histórias ingênuas, sendo fantasiadas,
entre suspense, segredo e mistério.
Léguas e léguas batidas de chão,
na confiança de um velho bastão,
cetro simbólico de um falso império.

Notícia vinda de outras querências,
sobre a partida daquele mulato.
Com egoísmo, ignoraram o fato,
que Deus chamara ao céu mais um filho,
dando-lhe vida através da morte,
pra que achasse enfim, o rumo e a sorte,
junto a Ele, o pobre andarilho.

domingo, 19 de maio de 2013

CAMBONA



Velha cambona de lata
tisnada pela fumaça
recostada nos tições
neste pago Riograndino
teu chiado é como um hino
ecoando nos galpões

Além do fogo-de-chão
te levo para o fogão
barreado ao modo campeiro
e espero tua fervura
pra chapoeirada que cura
ou pra um arroz carreteiro

Na minha cozinha campeira
te comparo com a chaleira
da cozinha da minha china
aqui com água do açude
na tua alça uma mão rude
lá água limpa e mão fina

Fazes parte há muitos anos
dos avios dos campechanos
em acampamentos ou galpões
por isto tu me emociona
ao te ver velha cambona
chiando entre os tições

É o sangue hereditário
do meu Rio Grande legendário
que corre dentro de mim
e no fogo do coração
te recosto num tição
até que chegue meu fim

sábado, 11 de maio de 2013

RETRATO DA VERDADE

Desenho próprio
Eu nunca vi na campanha,
nem que fosse por façanha,
quero-queros empoleirados.
Porém aqui na cidade,
no retrato da verdade,
fazem pose nos telhados.

Será que estão caducos,
desorientados ou malucos
e se extraviaram afinal?
Não, não ponham a culpa no progresso
e sim na ganância em excesso,
lá no “habitat” natural.

Os mananciais esgotados,
os campos abarrotados,
sem sobrar nenhum cantinho.
Não se anda mais ao trote
e é impossível ter filhotes,
se não tem lugar pra ninho.

Vamos lutar quero-quero,
sou consciente e não tolero,
ganância e destruição.
Como era bom lá fora,
quando a fauna e a flora,
não pensavam em extinção.

Faz com que teu grito de alerta,
tenha eco na hora certa
e não sucumba em quatro velas,
pra que em todas as coxilhas,
desta Pátria Farroupilha,
continues Sentinela!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

UMA CUIA ENTRE AS MÃOS

Desenho próprio

Tem horas que o taura se perde
na invernada do pensamento
deixando passar o tempo
ao passito sem ter pressa
e a recordar recomeça
mexer no baú da vida
e a saudade atrevida
já deixa tudo às avessas

Mas pra tudo tem remédio
entre as paredes de um galpão
uma cuia entre as mãos
sempre foi um lenitivo
de um Rio Grande primitivo
contraponteando a saudade
nas horas que ela invade
um pensamento intuitivo

Mas recordar é viver
e a noss’alma agradece
até se rejuvenesce
ao buscar reminiscências
de pagos e de querências
onde o passado viveu
e voltam ao nosso eu
sem lacunas ou reticências

sexta-feira, 3 de maio de 2013

CARREGANDO O TEMPO




Lá vem ele devagarito,
pela mesma estrada medindo os passos,
balançando o corpo e sempre solito,
carregando o tempo no seu compasso.

Já perdeu a conta de idas e voltas,
em milhões de passos no mesmo caminho,
vida sofrida porém sem revoltas,
lá vem novamente, falando baixinho.

Segurando firme o velho bastão,
lá vem rengueando o pobre ancião,
cabeça baixa sob o chapéu.

Nunca foi de caminhar ligeiro,
e talvez por isto aquele estradeiro
levará tempo até chegar no céu!

NO BRANQUEAR DA MELENA

Sob a melena tordilha,
pelechada pelo tempo,
ainda passam tropilhas,
tranqueando no pensamento.

Mate e fogo de chão,
vão curtindo seu carnal,
ontem campo, hoje galpão,
amanhã -  ponto final.

Como ele tantos outros,
corcovearam como potros,
nesta invernada terrena,

mas sem a sorte de um galpão,
de um mate ou fogo de chão,
no branquear da melena.

ALTO NOS PELEGOS

Dentre a rapaziada lá de fora, tinha um parceiro que era fora do padrão. Muito alto e magro a dar com um pau, como se diz. Era mais conhecido como “Coqueiro”, apesar de outros apelidos como, taquara, cipó, girafa...

Pois um dia, num fandango do outro lado do rio, já no município vizinho, se alinhavou com uma prenda. O Coqueiro não falava noutra coisa. O namoro era o seu xodó do momento.

Aos domingos, encilhava sua baia, que por sinal, floraça de égua, gorda, bem domada, buena de rédea e marchadeira e se bandeava para o outro lado pra amezinar os anseios do coração.

Depois que arrumou a namorada, a baia teve mais atenção. Dormia na cocheira, comia um milhozito e um verde à tardinha. Afinal a montaria era o meio de transporte do taura.

Certa feita, num sábado de baile lá do outro lado, a baia amanheceu abichornada, não levantava, se rolava, não comeu a ração.
- Cólica na égua, disse o velho.

O Coqueiro e o pai dele de pronto iniciaram os procedimentos campeiros pra reanimar a baia. Até uma comadre velha veio benzer o animal.

O tempo ia passando, eles lidando com a medicina campeira, mas a mostra de melhora não vinha nunca. A hora do baile chegando e o Coqueiro já apavorado deixou o velho cuidando a égua e foi pegar um tobiano feiarrão, que puxava a pipa d’água. O tobiano era pouco mais que um petiço. A diferença era mínima, mas era a única alternativa para não perder o baile.

Chegou do potreiro montado no cavalito e seus pés por pouco não arrastavam no chão, afinal, o Coqueiro era realmente alto.

O pai dele, com uma risada de toda a boca, duvidou que ele fosse ao baile no tobiano, pois seria um verdadeiro fiasco ele daquele tamanho montado arrastando os pés.

Mas paixão é paixão, e ele depois de caprichar na pilcha, encilhou, colocando sobre o arreio mais ou menos uns oito pelegos. Teve que emendar a cincha com um ajoujo, porque além da pelegama, o tobiano era pançudo e daqueles que incham a pança na hora do aperto.

Pra encurtar o causo, o Coqueiro alçou a perna e saiu mandando lata. Mesmo com o andaime de pelego, ainda as botas roçavam nas macegas.

No outro dia chegou de volta em casa, contou que a uma certa distância do salão do dito baile, apeou e levou o tobiano a cabresto, já que a parceria estava reunida em frente o salão e a zombaria seria certa.

O Coqueiro “ficou feio no retrato”  mas não perdeu o baile nem a prenda.
        

terça-feira, 30 de abril de 2013

... DOS SÁBADOS



Já era um pouquito tarde
ao me dar conta da hora
mas quando a vontade aflora
a ânsia faz um alarde
e até parece que arde
como uma brasa no peito
fui de pronto dando um jeito
de me preparar pra farra
juntando as minhas garras
pra encilhar no parapeito

Dei um traquejo na figura
com brilhantina e estrato
no pescoço um maragato
e meus “talher” na cintura
bati casco na planura
escutando a voz do vento
me roía algo por dentro
quando despontou a lua
como um olhar de xirua
a instigar meu intento

Quando cheguei no povoado
ouvi uma gaita na manha
busquei a meia de canha
“golpiando” num baita trago
atei o zaino pra um lado
tirei as esporas e o pala
com uma vaneira baguala
veio um olhar sorrateiro
que pra quem é bem matreiro
vale mais que uma fala

Me entreverei na bailanta
demonstrando habilidade
pois andava com vontade
de pescocear uma percanta
fazer uso da garganta
pra um cochicho ao pé do ouvido
às vezes meio atrevido
motivado pelo anseio
que rasga a gente no meio
num frenesi desgranido

No compasso da vaneira
um namorico ainda morno
ia saindo do forno
bem à moda campeira
eu ia assim pela beira
porque o mingau era quente
tem que ter tato um vivente
pra chegar onde ele quer
porque um refugo de mulher
derruba e machuca a gente

“Tentiei” um apertãozinho
com a mão direita no cinto
fui subindo até o brinco
mas muito assim de mansinho
já era quase um carinho
de malícia revestido
a prenda ajeitou o vestido
fazendo um contrapasso
dando um tirão no meu braço
me chamando de atrevido

E bem no meio da sala
ela me deixou solito
depois de passar um pito
pelo que perdi a fala
chamaram o mestre- sala
que logo me deu o recado
e sem olhar para os lados
voluntário fui saindo
com dois brigadianos rindo
cada um no meu costado

Tá certo eu vinha carente
mas isto não justifica
a prenda era bonita
educada e descente
mas o fogo em minha mente
me fez perder a parada
e com a fuça deslavada
da casa tomei o rumo
não arrumei nem pro fumo
por ter feito esta cagada