O
sol já havia levado a sombra do mato para o outro lado da estrada. O dia muito
perto de sumir pelo horizonte e a picada ainda por passar.
Pelo
pescoço do petiço o suor escorria, o mesmo acontecendo por debaixo do arreio e
deslizando pelas costelas.
Havia
fama de que ali “às Ave Maria” aconteciam
fatos estranhos no interior da picada. Estórias e mais estórias eram contadas,
inventadas e renovadas e aumentadas.
O
guri por mais que tocasse o petiço, não atravessaria a tempo claro por aquele “túnel” feito a facões e foices na necessidade de um caminho mais curto.
Ele
se distraiu lá pelo bolicho onde dois tauras se desafiavam no jogo de bocha e
quando alçou a perna para levar as compras pra casa se deparou com o sol já
quase tocando a crista da coxilha ao longe.
Sentiu
a garganta ressecar, um sufoco no peito e chamou no rebenque o petiço para
tirar de suas patas o atraso da hora. O cusco corria a uns dois metros à frente
e com rápidas paradinhas olhava para trás.
Após
a curva da estrada, no lusco-fusco, saltou aos olhos do guri a picada com sua
boca aberta e a goela comprida e escura.
Andou
um pouco com os olhos fechados. Quando abriu, não viu o cusco e o petiço
aguçava as orelhas.
Pensou
voltar e olhando para trás avistou o cusco aguando uma macega. Assobiou pra ele
chamando pelo nome.
Um
pé de vento vindo por suas costas provocou estalos no mato e levou seu chapéu
rolando picada adentro como se estivesse sendo puxado por alguém. Seus cabelos
arrepiaram.
O
guri meteu a mão no bolso segurando o canivete, quadrou um pouco o corpo no
arreio, atiçou o cusco, cutucou com o garrão o petiço, fechou os olhos e num
galope, sem chapéu seguiu.
Na
sua imaginação, algum fantasma estaria experimentando seu chapéu e ele ia sendo
engolido aos poucos pela picada, de onde talvez jamais saísse.
Por
vez tirava a mão do bolso para conferir se a mala com as compras estava na
garupa e mantendo os olhos cerrados, assobiava para o cusco.