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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O CANTO DO SABIÁ


Nas andanças de retorno

pra querência que amo tanto

ouvi do sabiá o canto

ecoando entre as pitangueiras

e a velha laranjeira

sentinela da tapera

sobrevivendo ao tempo

com ralas folhas ao vento

acenou pra primavera

 

Senti naquele momento

uma nostálgica emoção

e num ímpeto pedi perdão

pelos bodoques gaiolas e arapucas

e reconheci minha culpa

num exame consciencioso

pois foram coisas do piá

que ao caçar um sabiá

tornava-se um vitorioso

 

Rezei na velha tapera

onde caçou o piá

e no canto do sabiá

também ouvi uma oração

foi com certeza o perdão

que o próprio sabiá me deu

senti um alívio no peito

e o sabiá pelo jeito

ficou feliz como eu


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

INDO EMBORA A ENCHENTE

Foto de Eron Oliveira da Silveira


Pra banda de outras querências
as nuvens seguiram cheias
acumulando nas veias
o seu sangue natural
e o astro maioral
que há dias tava mesquinho
achou de novo o caminho
apesar do temporal

As águas foram baixando
indo embora a enchente
e o gado lentamente
desce pra várzea pastando
os quero-queros revoando
no tenteio de um petisco
e um pato picaço arisco
passa por longe se espiando

As garças parecem fracas
voando contra o vento
e com jeito de sonolento
um socó chega de viagem
refletindo a imagem
numa água represada
as marrecas enfileiradas
retocam a maquiagem

Um “ocalito” solitário
se espanejando ao vento
nas grimpas um carancho atento
aos caramujos do lagoão
e dentro de um valetão
cardumes encurralados
e um canarinho arranchado
na casinha “dum” moirão

E vai mudando o cenário
pra voltar tudo ao que era
e a várzea fica na espera
por um dia, dois ou três
quem sabe se até um mês
um ano ou mais um pouco
para que o rio fique louco
vindo pra ela outra vez

domingo, 5 de setembro de 2021

PORONGO

 

Rude utensílio campeiro
com verniz ao natural
faz parte do ritual
na ceva do chimarrão
e no aconchego do galpão
quando o tempo dá tempo
eu me refresco ou me aquento
contigo nas minhas mãos

Com goles de água quente
a tradição tu conservas
quando a infusão da erva
em teu bojo faz espuma
e a bomba se apruma
pra que a seiva chegue em mim
e eu sorva até o fim
o mate que tu me arrumas

Lá nos tempos de guri
te ajeitava pra um ninho
onde corruíras ou canarinhos
chocavam na primavera
e na saudosa tapera
com uma corda em teu pescoço
te mergulhava no poço...
"que água boa que era"

domingo, 29 de agosto de 2021

SANGUINHA

 



A sanguinha deslizava preguiçosa num espraiado de areia dentro do potreiro, logo na saída do mato.

Ali era "adonde" os animais se juntavam pra matar a sede, as garças e os socós tenteavam os minúsculos lambaris prateados e a gurizada arrastava a barriga na água rasa como se estivessem nadando no próprio oceano.

As cigarras ocupavam o espaço aéreo, qual pequeninos helicópteros. Às vezes se perseguiam e disputavam o pouso na ponta de uma vara seca de alecrim.

Dentro do mato, na vertente, a cacimba junto a barranca, recebia os porongos gulosos que borbulhavam ao engolir aquela água cristalina para depois regurgitarem na gorducha talha que morava no canto da cozinha e dela para as chaleiras e cambonas, para o feitio da boia ou ceva do mate.

A sanguinha ainda continua preguiçosa apesar da pressa do tempo.

terça-feira, 20 de julho de 2021

BAILANDO COM QUALQUER TEMPO



A bailanta do Zé Grilo
tinha uma janela do lado
pros fundos tudo fechado
e uma portinha no oitão
num dos cantos o balcão
onde o trago era o consolo
pra um descorno ou rolo
com borrachos em comunhão

No outro canto as chinocas
retoçavam entre cochichos
na certeza que um cambicho
se achegaria de manso
o gaiteiro sem descanso
debulhava a botoneira
e as velhas alcoviteiras
bisbilhotavam no rancho

Com pouco espaço pra dança
tiravam as mesas pra fora
não se dançava de esporas
pra evitar algum dano
mais de cem bailes por ano
saíam com qualquer tempo
e o Zé Grilo sempre atento
de olho nos "Castelhanos"

Só lembrança resta agora
daquele divertimento
que foi no lombo do tempo
para os salões da cidade
e enquanto a sociedade
se moldou num novo estilo
a bailanta do Zé Grilo
morreu triste e com saudade

domingo, 11 de julho de 2021

LAVANDO A SAUDADE

Alguns meses se passaram
sem que pudesse ir lá fora
e hoje me mascarei
porque houve uma melhora
mas lambuzei as mãos no gel
se não a coisa piora

Enganchei no ombro a mala
com erva pra o chimarrão
charque pelanca e torresmo
pra caprichar um feijão
arroz café e açúcar
e farinha pra fazer pão

Quando cheguei na porteira
nem parecia verdade
mas meus olhos patrulhando
cada vez com mais vontade
foram derramando lágrimas
para lavar a saudade

Muitas folhas pelo chão
e muitos galhos caídos
meu rancho todo fechado
parecia aborrecido
mas quando abri a porta
fui saudado com um rangido

Tudo estava direitinho
conforme havia ficado
a não ser cheiro de mofo
e os trastes empoeirados
e teias de aranhas penduradas
como se fosse um bordado

Abri a porta dos fundos
dando alívio pra tramela
também dispensei as trancas
que prendiam as janelas
para que o sol e o vento
entrassem por todas elas

Me senti agradecido
naquele lugar bendito
de mãos dadas com a prenda
a contemplar o infinito
onde o ar é bem mais puro
e o céu mais que bonito

Outro dia irei de novo
para sair do sufoco
confinado em apartamento
periga se ficar louco
mas com a graça de Deus
tudo se ajeita aos pouco


segunda-feira, 5 de julho de 2021

LIDA NO RANCHO

 

Tomando conta do rancho
dona Preta leva a vida
e na rotina da lida
de mulher de peão de estância
sem pensar nas circunstâncias
que o destino lhe reserva
ceva no verde da erva
os mates da esperança

Na confiança de um bastão
volteia pelo terreiro
colhe flor no jasmineiro
pra mod' enfeitar a sala
pois o perfume que exala
lhe traz afáveis lembranças
dos namoricos da infância
com o mocito de pala

Na folhinha da parede
controla os dias do ano
matracando os seus planos
para a Páscoa e o Natal
e quem sabe afinal
como havia prometido
de convencer o marido
pra conhecer o Carnaval

Na moldura de um quadro
já quase da sua idade
a Santíssima Trindade
simboliza a devoção
e as calejadas mãos
na hora da Ave Maria
agradecem mais um dia
se unindo pra oração

Assim passa dona Preta
naquele rancho de paz
onde a vida se refaz
com as bênçãos do Pai Bendito
e no amor infinito
que nem o ciúme abala
aquerenciado no pala
do seu amado mocito

segunda-feira, 21 de junho de 2021

NO VIRAR DO MEIO DIA

 

Zumbia uma mamangava
num buraco do esteio
talvez fazendo um floreio
ou afinando a guitarra
quem sabe por ciúme ou farra
na hora do meio dia
abafar a melodia
estridente da cigarra

Meu cusco errava bocadas
numa mosca insistente
o cinamomo da frente
quieto não se balançava
a caturra lambançava
num idioma que é só dela
e na piscina de gamela
um leitão se refrescava

Este era o cenário
depois de deixar a mesa
onde até a natureza
cochilava naquela hora
hoje uma saudade aflora
vinda do fundo do peito
pedindo que eu dê um jeito
de ir pra sestear lá fora


sexta-feira, 18 de junho de 2021

FILÓSOFAS DA VIDA FÁCIL

Sai muita cobra e lagarto
num bate boca de china
faísca na gasolina
e chispa de busca-pé
é bem coisa de "muié"
numa peleia feminina
o manotear nas quilinas
bunda de fora e banzé

Um palavreado seleto
em forma de ladainha
inflama mais ainda a rinha
e os podres vem para fora
a mais nova sempre chora
com a explanação do currículo
expoente do ridículo
que a cada "elogio" piora

E assim segue o espetáculo
no picadeiro da rua
uma pelada e outra nua
olho roxo escabeladas
com mordidas e unhadas
falta de ar e cansaço
até ganharem o "abraço"
da Patrulha da Brigada


METIDO DE PATO A GANSO


Me entreverei de carancho
num surungo certa feita
e por causa da desfeita
vinda do dono do rancho
já tumultuei o farrancho
e engrossou a peleia
meu sangue ferveu nas veias
como um rio na enchente
e amacotei o vivente
com um tapão na "oreia"

Se veio a cupinchaiada
como alcateia de lobo
e pensando não ser bobo
peguei o rumo da estrada
mesmo assim uma paulada
me fez dano na paleta
rodopiei numa piruleta
com um cutucão no pescoço
dum nagão de berro grosso
já com a agulha na espoleta

Levei muquete e sopapo
da pinha ao fim da espinha
sentindo perder a rinha
mas botando fé no taco
e por baixo do casaco
me cocei pra fazer medo
não deu certo o enredo
apesar do meu esforço
quando veio mais reforço
chegando o chinaredo

Eu levantava e caía
caía e me levantava
senti que a coisa piorava
mi'adaga foi-se à la cria
meio tonto mas ouvia
hoje a pau eu te desmancho
me meter de pato a ganso
não foi um bom resultado
e se eu não for convidado
nunca mais vou de carancho